domingo, 24 de outubro de 2010

Assertiveness and Body Language

By the 1970s, several psychologists researching assertiveness training had started to question whether verbal strategies were sufficient and to focus their attention also upon the non-verbal components of assertive behaviour. Alberti & Emmons, in the best-known textbook on assertiveness, Your Perfect Right, make it clear,

Many people view assertiveness as a verbal behaviour, believing that they must have “just the right words” to handle a situation effectively. On the contrary, we’ve found that how you express an assertive message is a good deal more important than what you say.

Although scripts of “what to say when…” are popular with many assertiveness trainers, that has never been our style. We’re primarily concerned with encouraging honsety and directness, and much of that message is communicated nonverbally. (Alberti & Emmons, 2001)

These authors were influenced by the Californian psychiatrist Michael Serber who became well-known for his research in this area of the assertiveness field. Mehrabian had conducted some research in the 1960s and 1970s that suggested non-verbal components of communication may be more important than what is said. Serber used well-established behaviour therapy principles and techniques to systematically train his patients in the non-verbal components of assertive behaviour. These methods include,

Role-modelling the desired behaviour by the therapist or an actor, for the client to imitate

Rehearsal of the desired behaviour by the client in progressively more challenging role-play exercises

Coaching from the therapist in shaping “successive approximations” to the ideal behaviour

Based on his extensive experience of training clients in this way, Serber found it helpful to distinguish between teh following components of non-verbal behaviour,

Loudness of voice. Are you shouting or speaking too quietly? Can you be heard from a normal distance?

Fluency of words spoken. Is there stammering or excessive pauses? Is speech “staccato” or flowing?

Eye-contact. Are eye-movements normal? Are the eyes being diverted or is there staring?

Facial expression. Does facial expression change? Does it match (congruence) with what is being said?

Body expression. Is body tense and rigid? Are gestures natural and appropriate to what is being said?

Distance/physical contact. Are you tending to stand too close or too far away? Are you observing normal body space?

Take a moment to consider a situation where you’d like to be more assertive (or like someone you’re helping to be more assertive) and give yourself marks out of ten for each of the six component skills above.

Serber found that it was best to clearly identify a specific problem situation for rehearsal. He also recommended that training should focus on one component skill at a time. Serber found it very helpful to video tape role-play sessions to be reviewed with the client, although this is not essential. A typical role-play would be set up as follows,

You have just met a prospective employer who is sitting behind his desk. He will act sympathetically toward you – smile, ask supporting questions, etc. It is your task in 3 minutes to begin a conversation with him and try to impress him with your qualifications for a (specific) job. (Serber, 1972)

Role-play sessions in assertiveness training typically last about 2-3 minutes and may only need to be done once but are more typically repeated 3-4, or more, times in a single session.

Serber introduced the clever method of “silent role-play” to help develop the crucial non-verbal components of assertiveness.

The trainee is told to use only his face and body to express his feelings and thoughts. He is requested to performa timed sample exercise (2-3 minutes) in a stated situation, without any vocalisation. This “silent movie” is then modeled for the trainee, and usually, after several trials, both facial and body expression may become more mobile and appropriate. (Serber, 1972)

Serber developed another exercise called “sell me something” in which he asked clients to try to persuade him of the value of some object, such as a watch, for about thirty seconds. (This is a bit like the notion of an “elevator pitch”.) With progress, clients may be asked to sell themselves, i.e., to persuade another person of their own strengths and good qualities. The challenge here is to find the right words, become familiar with saying them, and to make nonverbal behaviour consistent with the verbal message.

Selling something is a good exercise for developing assertiveness skills because it can be done many times, spontaneously, in naturally-occuring situations. For example, a client might learn to “sell” their favourite book, movie, television programme, or food, and speak persuasively to others about it when the opportunity arises. People often talk about their interests and preferences and it’s natural to contribute comments such as “I saw a great film the other week, the acting was superb, it had a real impact on me…” to a conversation.

Of course, it’s important not to oversell things, and it helps to keep things brief but congruent, and become an advocate for the things (or people) you actually do value or admire in life. This is good training for learning to sell yourself and speak congruently and positively about your own good qualities to other people, when it would be natural to do so.
O COMPORTAMENTO ASSERTIVO

Se você passa pela vida cheio de inibições, cedendo à vontade alheia, guardando seus desejos dentro de si, ou, ao contrário, destruindo os outros a fim de atingir seus próprios objetivos seu sentimento de autovalor estará baixo.

Nosso sistema de vida ocidental muitas vezes cultiva maneiras conflitivas de comportamento em várias áreas de relacionamento interpessoal, havendo uma nítida contradição entre comportamentos "recomendados" e comportamentos "reforçados".

As instituições da sociedade têm ensinado com tanto empenho a inibir a expressão dos direitos razoáveis de uma pessoa que esta pode se sentir culpada por haver se afirmado.

Cada pessoa tem o direito de ser e de expressar a si mesma, e sentir-se bem (sem culpas) por fazer isso, desde que não fira seus semelhantes no processo. O comportamento que torna a pessoa capaz de agir em seus próprios interesses, a se afirmar sem ansiedade indevida, a expressar sentimentos sinceros sem constrangimento, ou a exercitar seus próprios direitos sem negar os alheios, é denominado de comportamento assertivo.

A pessoa não-assertiva tende a pensar na resposta apropriada depois que a oportunidade passou. A pessoa agressiva pode responder muito vigorosamente, causando uma forte impressão negativa e mais tarde arrepender-se disso. É nosso propósito neste texto, orienta-lo para que obtenha um repertório de comportamento assertivo mais adequado para que escolha respostas apropriadas e satisfatórias em várias situações.

Pesquisas demonstraram que o aprendizado de respostas assertivas inibirá ou enfraquecerá a ansiedade previamente experimentada em relações interpessoais específicas.

Quando a pessoa se torna capaz de afirmar-se e fazer coisas por iniciativa própria, ela reduz apreciavelmente sua ansiedade ou tensão anteriores em situações críticas e aumenta seu senso de valor como pessoa.

Este mesmo senso de valor está geralmente ausente na pessoa agressiva, cuja agressividade pode mascarar sentimentos de culpa e de insegurança. Desta forma, podemos caracterizar três tipos de comportamento interpessoal:

COMPORTAMENTO
NÃO-ASSERTIVO COMPORTAMENTO
AGRESSIVO COMPORTAMENTO
ASSERTIVO
O EMISSOR O EMISSOR O EMISSOR

Nega a si próprio Valoriza-se às custas dos
dos outros Valoriza-se
Fica inibido Expressa-se Expressa-se
Fica magoado e ansioso. Deprecia os outros Sente-se bem consigo mesmo
Permite que outros escolham Escolhe para os outros Escolhe por si para ele
Não atinge os objetivos Pode atingir os objetivos
ferindo os outros desejados Atinge os objetivos desejados

O RECEPTOR O RECEPTOR O RECEPTOR
Sente culpa ou raiva Repudia-se Valoriza-se
Sente-se ferido, humilhado e na defensiva Deprecia o emissor Expressa-se
Não atinge os objetivos desejados Atinge os objetivos às custas
do emissor Pode atingir os objetivos desejados


O comportamento agressivo resulta comumente num "rebaixar" o receptor. Seus direitos foram negados e ele se sente ferido, humilhado e na defensiva. Embora a pessoa agressiva possa atingir seus objetivos, ela pode também gerar ódio e frustração que poderá receber mais tarde como vingança.

Por outro lado, um comportamento assertivo apropriado na mesma situação aumentaria a auto-apreciação do emissor e uma expressão honesta de seus sentimentos. Geralmente ele atingirá seus objetivos, tendo escolhido por si mesmo como agir. Um sentimento positivo a respeito de si mesmo acompanha uma resposta assertiva.

Do mesmo modo, quando as consequências destes três comportamentos contrastantes são vistas da perspectiva de uma pessoa "sobre a qual" eles são emitidos (ou seja, o indivíduo ao qual o comportamento é dirigido), surge um padrão paralelo. O comportamento não-assertivo produz freqüentemente sentimentos que vão de simpatia a um franco desprezo pelo emissor.

Também a pessoa que recebe a ação (receptor) pode sentir culpa ou raiva ao atingir seus próprios objetivos às custas do emissor. Pelo contrário, uma transação envolvendo asserção aumenta os sentimentos de autovalorização e permite expressão total de si mesmo. Além disso, enquanto o emissor atinge seus objetivos, os objetivos do indivíduo ao qual o comportamento é dirigido também podem ser atingidos.

Em suma, é claro então que no comportamento não-assertivo o emissor se prejudica pela própria autodesvalorização; e no comportamento agressivo o receptor é prejudicado. No caso da asserção, nenhuma pessoa é prejudicada e, a menos que os objetivos desejados sejam totalmente conflitantes, ambos podem sair-se bem.


EXEMPLOS DE CASOS


"Jantando Fora"

O Sr. e a Sra.A estão num restaurante de preços moderados. O Sr.A pediu um bife especial, mas quando foi servido percebeu que estava muito bem passado, ao contrário do que ele havia pedido. Seu comportamento é:


Não-Assertivo:

O Sr.A resmunga para a mulher a respeito do bife "queimado" e diz que não volta mais neste restaurante. Ele não diz nada ao garçom e responde "tudo legal" à sua pergunta "está tudo bem?". A sua noite e seu jantar são altamente insatisfatórios e ele se sente culpado por não ter tomado uma atitude. A auto-estima do Sr.A e a admiração da Sra.A por ele são diminuídas pela experiência.


Agressivo:

O Sr. A chama o garçom à mesa e é injusto e grosseiro com ele por não ter atendido bem. A sua atitude ridiculariza o garçom e constrange a Sra.A. Ele pede e recebe outro bife mais de acordo com o que queria. Ele se sente controlando a situação, mas o embaraço da Sra.A cria atrito entre eles e estraga a noite. O garçom fica humilhado, zangado e sem jeito o resto da noite.


Assertivo:

O Sr.A chama o garçom à sua mesa, lembra-lhe que pediu um bife especial, mostra-lhe o bife bem passado, pede-lhe educada mas firmemente que o troque por um mal passado como ele havia pedido. O garçom pede desculpa pelo erro e rapidamente o atende. O casal aprecia o jantar e o Sr.A se sente satisfeito consigo mesmo. O garçom se sente feliz com o freguês satisfeito e o serviço adequado.


"Emprestando Alguma Coisa"

Helen é uma universitária atraente e excelente estudante, amada pelos professores e colegas. Ela mora numa república com seis moças, dividindo seu quarto com duas. Todas as moças namoram regularmente. Uma noite, enquanto as colegas de quarto de Helen se preparavam para encontrar os namorados (Helen planeja uma noite tranqüila elaborando um trabalho escolar), Maria diz que vai sair com um cara muito legal e espera dar uma boa impressão. Ela pergunta a Helen se pode usar um colar novo que Helen acabou de ganhar de seu irmão. Helen e seu irmão são muito amigos e o colar significa muito para ela. Sua resposta é:


Não-Assertiva:

Ela "engole em seco" seu medo do colar ser perdido ou danificado, e seu sentimento de que seu significado especial o tornava muito importante para ser emprestado e diz:"Claro".

Ela se desvaloriza, reforça Maria por fazer um pedido excessivo e se preocupa toda a noite (o que traz pouca contribuição para o trabalho escolar).


Agressiva:

Helen mostra indignação pelo pedido da amiga, diz-lhe "absolutamente não" e começa a censurá-la severamente por atrever-se a fazer uma pergunta "tão cretina". Ela humilha Maria e faz um papel ridículo. Mais tarde se sente incomodada e com sentimento de culpa, o que interfere no seu estudo. Maria se sente ferida e estes sentimentos manifestam-se mais tarde, estragando seu encontro, pois não cosegue se divertir, o que intriga e desencoraja o rapaz. Daí em diante o relacionamento de Helen com Maria passa a ser bastante tenso.


Assertiva:

Ela fala do significado do colar e, gentil mas firmamente, diz que aquele pedido não pode ser atendido, pois a jóia é muito pessoal. Mais tarde ela se sente bem por ter sido sincera consigo mesma e Maria, reconhecendo a validade da resposta de Helen, faz grande sucesso com o rapaz, sendo também mais honesta e franca com ele.


"Fumando Maconha"

Pam é uma aluna do terceiro colegial, muito simpática, que tem se encontrado com um rapaz muito atraente do qual tem gostado muito. Numa noite ele a convida a participar de um bate-papo com outros dois casais, ambos casados.

Quando todos se reuniram na festa, Pam sentiu-se muito bem e gostou muito. Depois de uma hora mais ou menos, um dos homens casados pegou alguns cigarros de maconha e sugeriu que todos fumassem. Todos prontamente aceitaram, exceto Pam, que não queria experimentar maconha. Ela fica em conflito, porque o rapaz que ela admira está fumando maconha e, quando ele lhe oferece o cigarro, ela decide ser:


Não-Assertiva:

Aceita o cigarro, demonstrando já ter fumado maconha antes. Ela observa atentamente os outros para ver como eles fumam. No fundo, ela teme que eles lhe peçam para fumar mais. Os outros estão falando em "ficar muito doidos" e Pam está preocupada com o que o rapaz está pensando dela. Ela negou a si própria, não foi sincera com seu namorado, e sente remorso por ter entrado numa que não queria.


Agressiva:

Pam fica indignada quando lhe oferecem a maconha e explode com o rapaz por tê-la levado a uma festa de tipo tão "baixo". Diz que prefere voltar logo para casa do que ficar com este tipo de gente. Quando as outras pessoas da festa lhe dizem que ela não precisa fumar, se não quiser, ela não se satisfaz e continua indignada. Seu amigo fica humilhado, sem jeito com seus amigos e desapontado com ela. Embora ele continue cordial com Pam quando a leva para casa, ele não mais a convidará para sair.


Assertiva:

Pam não aceita o cigarro, dizendo simplesmente: "Não, obrigada. Não estou com vontade". Ela continua, explicando que nunca fumou antes e que não tem vontade de fazê-lo. Diz que preferiria que os outros não fumassem, mas reconhece o direito que eles têm de fazer suas próprias escolhas.


"A Gorducha"

O Sr. e Sra.B estão casados há nove anos e recentemente vêm tendo problemas conjugais, porque ele insiste em que ela está muito gorda e precisa emagrecer. Ele volta ao assunto constantemente, dizendo-lhe que ela não é mais a mesma mulher com quem se casou (que tinha 50 Kg.), que este excesso de peso lhe faz mal a saúde, que ela é um mau exemplo para as crianças, etc.

Além disso, ele a goza, dizendo que ela é bola, olha apaixonadamente para as moças magras, comentando sobre o quanto são atraentes, e faz referências à sua má aparência na frente dos amigos. Nos últimos três meses o Sr.B tem se comportado desta maneira e a Sra.B já está terrivelmente contrariada. Ela tem tentado perder peso nestes três meses, mas sem muito sucesso. Seguindo a onda de críticas do Sr.B, a Sra.B é:


Não-Assertiva:

Ela pede descupas por seu excesso de peso, às vezes se descupa sem convicção, outras simplesmente aceita calada as críticas do marido. Interiormente ela sente raiva do marido pela sua chateação e culpa-se pelo excesso de peso. Sua ansiedade torna mais difícil para ela perder peso, e a briga continua.


Agressiva:

A Sra.B faz frequentes comentários, dizendo que seu marido também não vale grande coisa. Ela menciona o fato de que à noite ele cai no sono no sofá, é um péssimo parceiro sexual e não lhe dá atenção suficiente.

Estas coisas não têm nada a ver com o problema, mas a Sra.B continua. Ela queixa-se de que ele a humilha na frente das crianças e amigos mais chegados e age como um "velho sem vergonha" pelo modo que olha as moças atraentes. Na sua raiva ela só consegue ferir o Sr.B e construir uma barreira entre eles, defendendo-se com o contra-ataque.


Assertiva:

A Sra.B procura o marido numa hora em que ele está sozinho e não será interrompido; então lhe diz que sente que ele está certo com relação à sua necessidade de perder peso, mas que não gosta da sua maneira de colocar o problema. Diz que está fazendo o melhor que pode e que está sendo duro perder peso e manter o regime. Ele compreende a ineficácia de ficar repisando o assunto e decidem trabalhar juntos num plano no qual ele vai reforçá-la sistematicamente por seus esforços em perder peso.


"O Menino do Vizinho"

O Sr. e Sra.E têm um filho de dois anos e uma filha de dois meses. Recentemente, por diversas noites, o filho do vizinho de 17 anos, tem ficado em seu carro, ao lado da casa, ouvindo som altíssimo. Ele começa exatamente na hora em que as duas criaças do casal E se recolhem para dormir, exatamente ao lado da casa onde o rapaz ouve as músicas. A música alta acorda as crianças toda noite e é impossível para os pais fazê-las dormir enquanto a música continua. O casal E está incomodado e decide ser:


Não-Assertivo:

O Sr. e Sra.E levam as crianças para seu quarto, do outro lado da casa, esperam até que a música cesse, por volta de 1 hora da madrugada, então transferem as crianças para o quarto delas. E vão dormir muito depois do horário de costume. Eles continuam a maldizer o rapaz em silêncio, e breve se desligam dos vizinhos.


Agressivo:

O casal E. chama a polícia e reclama que "um desses jovens selvagens" da casa ao lado está incomodando. Exigem que a polícia "faça seu papel" e pare com o barulho de uma vez. A polícia fala com o rapaz e com seus pais, que ficam muito chateados e com raiva pelo embaraço da visita da polícia. Eles reprovam o fato de o casal E ter chamado a polícia antes de conversar com eles e resolvem evitar qualquer relacionamento com eles.


Assertivo:

O casal vai à casa do rapaz e diz a ele que sua música está mantendo as crianças acordadas à noite. Procura, junto com o rapaz, encontrar uma solução para o caso, que não pertube o sono das crianças. O rapaz relutantemente concorda em abaixar o volume à noite, mas aprecia a atitude cooperativa do casal E. Todaos se sentem bem com os resultados.


"Já Passou dos Limites"

Marcos, de 28 anos, chega em casa e encontra um bilhete da mulher, dizendo que iniciou um processo de divórcio. Ele fica muito perturbado, principalmente porque ele não lhe disse cara a cara. Enquanto procura se controlar e compreender por que ela agiu daquela maneira, ele relê seu bilhete:

"Marcos, estamos casados há 3 anos e nunca, em nenhum momento, você me permitiu ser eu mesma e agir como um ser humano. Você sempre me disse o que fazer, sempre tomou todas as decisões. Você nunca aprenderá a mostrar carinho e afeição por ninguém. Tenho medo de ter filhos com receio de que eles possam ser tratados como eu sou. Aprendi a perder todo o respeito e admiração por você. Ontem à noite, quando você me bateu, foi o fim. Vou me divorciar de você."

Marcos decide reagir a este bilhete sendo:


Não-Assertivo:

Sente-se completamente só, com remorso e com pena de si mesmo. Começa a bater e finalmente toma coragem suficiente para chamar sua mulher na casa dos pais dela. No telefone, implora perdão, pede a ela que volte e promete mudar.


Agressivo:

Marcos fica furioso com o comportamento de sua mulher e sai para procurá-la. Ele a agarra violentamente pelo braço e exige que ela volte para o lar ao qual ela pertence. Diz-lhe que ela é sua mulher e tem que fazer o que ele diz. Ela briga e resiste; seus pais intervêm e chamam a polícia.


Assertivo:

Marcos liga para a mulher e diz-lhe que percebe que foi tudo basicamente por culpa dele, mas que gostaria de mudar. Fala de sua boa vontade de marcar uma consulta com um psicólogo e espera que ela participe com ele.


FUNDAMENTOS PARA UM COMPORTAMENTO ASSERTIVO

"Tá bom", você diz, "pode ser que eu não seja tão assertivo quanto gostaria de ser. Você não pode ensinar um cavalo velho a marchar. Esta é minha maneira de ser. Não posso mudá-la".

Não concordamos. Milhares de pessoas têm descoberto que se tornar mais assertivo é um processo de aprendizagem e que é possível para elas mudarem. Muitas vezes um "cavalo velho" precisa de mais tempo para aprender, mas a recompensa é grande e o processo não é, de fato, tão difícil. Em primeiro lugar, como posso saber que realmente quero mudar? Existe algum perigo em potencial na asserção? E as pessoas significativas da minha vida; elas não farão objeção se eu, de repente, me tornar mais expressivo?. Este capítulo pretende fornecer uma fundamentação para o desenvolvimento autodirigido do comportamento assertivo.


PORQUE DEVO MUDAR?

"Sim, sou não-assertivo, e daí?" Bem, pense por exemplo, até que ponto você conhece as consequências deste comportamento? Já observou como você se dá com os outros? Frequentemente as pessoas tiram vantagem de você? Você evita certas situações sociais porque se sente muito ansioso? Já perdeu um emprego ou encontro por não ter conseguido conversar com alguém? Nunca isto lhe custou dinheiro, porque você "não podia" devolver à loja uma compra estragada? Já comprou alguma coisa que não queria, porque "não podia dizer não"? Já foi criticado por seu cônjuge ou por outras pessoas por indecisão?

Algumas destas consequências da não-assertividade forçosamente produzirão angústia, desapontamento e talvez auto-recriminação. Se você experimentou este tipo de sofrimento já tem motivação para mudar. Você está pronto para ir em frente e estamos certos de que os procedimentos apresentados aqui lhe serão de grande valor. Aprender a "lutar por seus direitos" não é uma panacéia, mas um grande passo para se libertar do peso de um comportamento de autonegação.

Muitas vezes é mais difícil a pessoa agressiva perceber que necessita de ajuda, pois está acostumada a controlar o ambiente para satisfazer suas necessidades. Se seu estilo é agressivo, é muito provável que suas relações atuais se tornem piores, a não ser que procure ajuda. Um relacionamento que não é saudável tende a se deteriorar e pode fazê-lo se sentir pior do que agora. Temos percebido que, em geral, a pessoa que se comporta agressivamente pode procurar mudar por sugestão de outros. Muitas vezes ela é movida pela sua própria frustração com a inadequação de seu comportamento.

Você sempre assume a liderança em relações sociais? É você, sempre, que tem que telefonar primeiro para seus amigos? Raras vezes as pessoas o introduzem espontaneamente numa discussão? Você é, invariavelmente, o "vencedor" nas discussões? Frequentemente você ralha com empregados por um serviço inadequado? Você dita as regras para seus subordinados no trabalho? Para seus familiares em casa? Você percebe as pessoas tentando evitá-lo? A alienação das pessoas que lhe são próximas é o preço que você paga para que as coisas caminhem do jeito que você quer? A assertividade pode atingir os mesmos resultados com muito menos feridos no relacionamento.

Um exemplo que demonstra de maneira interessante tanto repostas não-assertivas quanto agressivas à ansiedade é o caso de Karen, que estava tendo ataques de raiva dirigidos contra o homem com quem ela planejava se casar. Sua ansiedade era causada pela falta de consideração dele; chegava muito tarde aos encontros, só lhe avisava dos compromissos a que ele queria ir com ela na última hora, e outras faltas de cortesia. Karen não era assertiva com seus direitos de exigir a cortesia devida, até que sua raiva cresceu a um nível irracional e então ela explodiu com ele. Assim que ela tomou consciência de que a situação pioraria depois do casamento, e do que significaria estar casada vivendo este tipo de relacionamento, e da possibilidade de seu casamento terminar em divórcio, Karen concordou com um treinamento assertivo. Infelizmente muitas mulheres atravessam todo o seu casamento "sob o domínio" do marido, porque sentem que é o "seu lugar" no casamento.


OS SEUS DIREITOS

Ao sugerirmos asserção para as pessoas, enfatizamos o fato de que ninguém tem o direito de aproveitar de outro simplesmente por uma questão de se tratar de seres humanos. Por exemplo, um empregador não pode desrespeitar os direitos de cortesia e respeito que o empregado merece como ser humano. Um médico não tem o direito de ser descortês ou injusto ao lidar com um paciente ou enfermeira. Um advogado não deve sentir que tem o direito de "falar de cima" com o operário. Cada pessoa tem o direito inalienável de expressar-se, mesmo que "só tenha o primário" ou "esteja no caminho errado" ou seja "apenas uma auxiliar de escritório". Todas as pessoas são, de fato, criadas iguais num plano humano e cada uma merece o privilégio de expressar seus direitos inatos. Há muito a ganhar da vida sendo-se livre e capaz de lutar por si mesmo e garantir os mesmos direitos para os outros. Sendo assertiva, a pessoa está aprendendo a dar e receber em igualdade com os outros e estar mais a serviço de si e dos outros.

Outra faceta que motiva muitos a se tornarem assertivos é a maneira como certos problemas somáticos se reduzem à medida que a asserção progride. Queixas como dores de cabeça, asma, problemas gástricos, fadiga geral, freqüentemente desaparecem. A redução na ansiedade e culpa que é experimentada por pessoas não-assertivas e agressivas, quando aprendem a ser assertivas, resulta freqüentemente na eliminação destes sintomas físicos.

Esta é a hora para compreender que você não está sozinho, que outros já enfrentaram desafios e situações semelhantes e mudaram para melhor.

A esperança e coragem necessárias para iniciar o treinamento pode ser conseguida estudando as descrições dos casos para aprender como outros ultrapassaram dificuldades similares com êxito. Você poderá se identificar com casos que citamos anteriormente e que continuaremos a descrever.

Uma implicação da asserção está sempre presente em indivíduos não-assertivos: comportamento auto-negativo sutilmente reforça outro comportamento mau ou indesejável. Dois exemplos deixam isso claro:

Diana, uma mulher casada de 35 anos, tinha um marido que desejava ter relações sexuais toda noite. Às vezes ela estava francamente cansada das atividades do dia como dona de casa e mãe de três filhos e não queria ter relações. Contudo, quando Diana recusava, seu marido reclamava e ficava magoado, insistindo até que ela "sentia pena dele" e cedia. Esses fatos se repetiam com tanta frequência em seu relacionamento que se tornaram habituais, e quanto mais Diana negava, mais ele insistia até que ela cedesse. Naturalmente, fazendo isso, ela reforçava o comportamento dele, sem contar o valor do reforço da gratificação sexual dele.

Outro exemplo é de uma estudante universitária, Wendy, de 20 anos, que embora fosse independente financeiramente, era do tipo "hippie" e vivia fora do campus em moradia barata com um rapaz e uma moça. Vivendo juntos eles dividiam as despesas e economizavam muito dinheiro. Wendy e seus amigos tinham a reputação de ser "rebeldes". Rumores sobre o comportamento deles e suas condições de vida chegaram a seus pais, que a submeteram a longa preleção sobre a nova geração, respeito à autoridade, a saúde de sua mãe, ser vulgar, e assim por diante. Isso aconteceu várias vezes e a cada vez Wendy perturbava-se eventualmente e perguntava o que podia fazer para conciliar as coisas, e então cedia a algumas exigências deles. Assim, novamente vemos como Wendy reforçava o comportamento indesejável de seus pais, perturbando-se ou cedendo, quer dizer, ela lhes ensinava como fazer preleções a ela.

Embora possa ser mais difícil para o indivíduo geralmente agressivo admitir as consequências de seus atos, ele geralmente reconhece a reação dos outros quando os direitos deles são desrespeitados. Ele reage internamente com reconhecimento e pesar quando confrontado com a alienação que seu comportamento provoca. Se você procura ajuda, você consegue admitir para si mesmo sua preocupação e sentimento de culpa pelo mal que causou aos outros e pode reconhecer que você simplesmente não sabe como atingir seus objetivos de maneira não-agressiva. Neste ponto você é um excelente candidato para o treinamento assertivo.

Um indivíduo desse tipo foi colocado num grupo de terapia. Depois de um tempo considerável ouvindo Jerry, que monopolizava totalmente o grupo, vários membros o questionaram duramente. Embora fosse um homem forte e turbulento, Jerry logo reagiu a essa resposta, atenciosa porém questionadora que lhe foi transmitida pelo grupo, com uma crise de choro. Ele contou que seu jeito de valentão era apenas um disfarce que o protegia da intimidade das pessoas. Esta intimidade lhe era ameaçadora. Ele se sentia um desajustado e usava a máscara do "machão" para manter os outros à distância. O grupo respondeu à necessidade que Jerry tinha de ser estimado e o ajudou a elaborar respostas adequadamente assertivas que substituíssem seu comportamento provocativo e belicoso.


UMA ADVERTÊNCIA ANTES QUE VOCÊ COMECE

Desde que você está bem motivado e pronto a começar a ser assertivo, você deve primeiramente assegurar-se de que compreende perfeitamente os princípios básicos da asserção. Entender a diferença entre comportamento assertivo e agressivo é importante para seu sucesso. Em segundo lugar, você deve decidir se está pronto para começar a treinar o comportamento auto-assertivo sozinho. Geralmente as pessoas situacionalmente não-assertivas ou situacionalmente agressiva são capazes de começar a asserção com êxito. Para os indivíduos geralmente não-assertivos e geralmente agressivos, contudo, maior prudência é necessária; e recomendamos uma prática e trabalho lento e cuidadoso com outra pessoa, de preferência um terapeuta treinado, como facilitador.

Em terceiro lugar, suas tentativas devem ser escolhidas por ser potencialmente promissoras, para lhe dar o devido reforço. Este ponto, naturalmente, é importante para todos os assertivos iniciantes, mas especialmente para os geralmente não-assertivos e os geralmente agressivos. Quanto maior êxito você obtiver no início, maior a probabilidade de que esse êxito continue durante o treinamento.

Inicialmente, comece com pequenas asserções que tenham possibilidade de ser compensadoras, e então prossiga com algumas mais difíceis. Você pode desejar explorar cada passo com um amigo ou facilitador treinado até que você seja capaz de controlar totalmente a maioria das situações. Você deve proceder com cuidado quando tomar sozinho a iniciativa de tentar uma asserção difícil sem preparação especial. E tome muito cuidado para não tentar uma asserção que possa lhe acarretar um fracasso total. Isso poderá inibir suas tentativas futuras.

Se você sofrer um revés, o que pode muito bem ocorrer, pare a fim de analisar cuidadosamente a situação e tornar a ganhar autoconfiança, obtendo ajuda de um facilitador, se necessário. Especialmente nos primeiros estágios da asserção, é comum cometer erros por não usar adequadamente a técnica ou por excesso de entusiasmo, chegando ao ponto da agressão. Qualquer desvio desses pode causar respostas negativas, particularmente se a outra pessoa, "o receptor", tornar-se hostil e muito agressivo. Não deixe esta ocorrência desanima-lo. Considere novamente seu objetivo e lembre-se que, embora a asserção bem sucedida exija treino, suas compensações são grandes.

Em quarto lugar, pondere seu relacionamento com as pessoas próximas de você. De modo típico, padrões de comportamento não-assertivo ou agressivo têm sido exercidos por um indivíduo por um longo tempo. O indivíduo não-assertivo terá estabelecido padrões de interação com aqueles que estão significativamente próximos a ele, como família, cônjuge, amigos. Assim também acontece com o indivíduo agressivo. Uma mudança nessas relações já estabelecidas pode causar bastante transtorno aos outros envolvidos. De um modo geral, os pais são freqüentemente alvo de comportamento assertivo especialmente no fim da adolescência ou aos vinte e poucos anos, quando os filhos lutam pela independência.

Naturalmente, algumas pessoas cedem aos desejos e ordens dos pais a vida toda (porque é "certo" respeitar os mais velhos, especialmente os pais que se sacrificaram tanto por você, etc.) Muitos pais acreditam piamente nisso e ficam muito desconcertados quando seu filho "se rebela" assertivamente. Por outro lado, pais que pautaram sua vida em resposta a um filho agressivo podem também ficar confusos quando perceberem que o comportamento dele está se tornando assertivo, embora há muito desejassem esta mudança. Consequentemente, pode ser útil pedir a um facilitador que intervenha e converse com os pais para prepará-los para estas modificações. Esta intervenção pode freqüentemente evitar que essas reações se exasperem e provoquem relações profundamente tensas entre pais e filhos.

Relacionamentos conjugais que têm se mantido há anos baseados nas ações não-assertivas ou agressivas de um cônjuge são igualmente propensos a ficar "de pernas para o ar" quando a asserção começa. Se o cônjuge não está preparado e disposto a mudar um pouco também, há uma forte possibilidade de rompimento entre o casal. A cooperação do cônjuge conseguida através de algumas reuniões com o facilitador pode ajudar imensamente a mudança de comportamento. Espera-se que um treinamento assertivo para um esposo fortaleça as relações conjugais. Contudo há um perigo potencial de comportamento de um dos parceiros e deve-se estar atento para agir com plena consciência dessas eventuais consequências. Uma conversa franca com os pais ou cônjuge é firmemente recomendada.


OS COMPONENTES DO COMPORTAMENTO ASSERTIVO

De maneira crescente, observações sistemáticas de comportamento assertivo têm levado muitos cientistas comportamentais a concluir que há muitos elementos que constituem uma ação assertiva. Em nosso trabalho de ajudar os outros a desenvolver maior asserção, demos atenção particular a estes componentes:

Olhar nos olhos - Olhar diretamente para a outra pessoa com a qual você está falando é um modo eficaz de declarar que você é sincero sobre o que está dizendo e que suas palavras são dirigidas a ela.

Postura do corpo - O "peso" de suas mensagens será aumentada se você olhar de frente para a pessoa, ficar de pé ou assentado apropriadamente perto dela, curvar-se para ela, manter a cabeça ereta.

Gestos - Uma mensagem acentuada por gestos apropriados adquire uma ênfase especial (gestos muito exuberantes podem parecer fora de propósito).

Expressão facial - Já viu alguém tentando expressar raiva enquanto sorri ou dá risada? Simplesmente não convence. Asserções eficazes requerem uma expressão que combine com a mensagem.

Tom de voz, inflexão e volume - Um sussurro monótono dificilmente convencerá outra pessoa de sua seriedade, enquanto um ímpeto gritado bloqueará seu campo de comunicação por suscitar resistência na outra pessoa. Um relato num nível correto, num tom coloquial bem modulado, será convincente sem intimidar.

Escolher a hora apropriada - A expressão espontânea será normalmente seu objetivo, pois a hesitação pode diminuir o efeito de uma asserção. Mas tem que haver um critério contudo, para selecionar a ocasião certa. Por exemplo, se você quer falar ao seu chefe, isso deverá ser feito na privacidade do escritório dele e não na frente do pessoal do escritório, onde ele pode responder defensivamente.

Conteúdo - Deixamos esta dimensão óbvia da asserção para o final, a fim de enfatizar que, embora o que você diz seja logicamente importante, é freqüentemente menos importante do que muitos de nós pensamos ser. Nós encorajamos uma honestidade fundamental em intercomunicação pessoal e espontaneidade de expressão. No nosso ponto de vista, isto significa dizer claramente: "Estou danada da vida com o que acabou de fazer"; ao invés de: "Você é um filho da p...".

As pessoas que têm "engasgado" anos a fio "por não saber o que dizer" acharam que a prática de dizer algo, para expressar seus sentimentos do momento, é um passo útil para atingir maior asserção espontaneamente.

Mais um comentário sobre conteúdo: nós lhe encorajamos a expressar seus sentimentos - e a aceitar responsabilidade por eles. Note a diferença entre o exemplo acima: "Estou furioso" e "Você é um filho da P..." Não é necessário humilhar outra pessoa (agressivo) para expressar seu sentimento (assertivo).

Sua imaginação pode levá-lo a uma vasta variedade de situações que demonstram a importância da maneira pela qual você expressa sua asserção. Basta dizer que o tempo que você passa pensando sobre "as palavras certas" será melhor usado se você passá-lo fazendo asserções!. O objetivo final é expressar a si mesmo, sincera e espontaneamente, da maneira "certa" para você.

Pronto, agora? Se chegou até aqui, você está provavelmente pronto para começar a dar os primeiros passos para aumentar sua própria asserção. Nós sabemos que você conseguirá êxito. A recompensa ultrapassa em muito os esforços exigidos. Boa viagem!


O DESENVOLVIMENTO DO COMPORTAMENTO ASSERTIVO

(MUDANDO COMPORTAMENTO E ATITUDES)

Infelizmente há um erro no consenso popular sobre o comportamento das pessoas. Uma opinião generalizada que os psicólogos julgam errônea é a idéia de que alguém deve mudar sua atitude antes de poder mudar o modo como se comporta. Em nossa experiência com centenas de clientes em treinamento clínico assertivo, e no feedback de alguns dos milhares de leitores deste livro, assim como de inúmeros relatórios de nossos colegas em prática psicológica, ficou claro que o comportamento pode mudar primeiro e é mais fácil e mais eficaz agir assim, na maioria dos casos.

Quando você começar o processo de se tornar mais assertivo, nós não pediremos que você acorde uma manhã e diga: "Hoje eu sou uma pessoa nova e assertiva!" Ao invés disso, você achará aqui um guia para uma mudança de comportamento gradual e sistemática. A chave para o desenvolvimento da asserção é a prática de novos padrões de comportamento. Este capítulo destina-se a guiá-lo através dos passos necessários em tal prática e demonstrar-lhe como você pode usar o novo comportamento assertivo no relacionamento com os outros.

Nós observamos um círculo de comportamento não-assertivo ou agressivo que tende a perpetrar-se, até que uma intervenção decisiva ocorra. A pessoa que tem agido não-assertivamente ou agressivamente em suas relações por um longo período, geralmente tem um baixo conceito de si mesma. Seu comportamento com os outros - abusivo ou de auto-negação - é respondido com desprezo, desdém ou abandono. Ela observa as respostas e diz para si mesma: "Veja, eu sabia que não valia nada". Vendo o baixo conceito que faz de si mesma confirmado, ela persiste em seu padrão inadequado de comportamento. Assim o círculo se fecha: comportamento inadequado, feedback negativo, atitude de auto-depreciação, comportamento inadequado.

O comportamento mais prontamente observável deste padrão é o próprio comportamento. Nós podemos facilmente perceber o comportamento claro em oposição a atitudes e sentimentos que podem estar ocultos atrás da fachada que nos é mostrada. Além disso, o comportamento é o comportamento mais passível de mudança. Nossos esforços de facilitar melhoraram as relações interpessoais. Além disso, uma maior valorização de si mesmo como pessoa surgirá com a mudança de seus padrões de comportamento.

Nós achamos que o círculo pode ser reverso, iniciando-se uma sequência positiva: o comportamento mais adequadamente assertivo (auto-valorização) ganha mais respostas positivas dos outros; este feedback positivo leva a uma avaliação positiva de si mesmo ("Puxa, as pessoas estão me tratando como alguém de valor!"), e os sentimentos melhorados sobre si mesmo resultam em asserções futuras.

Harold estava convencido há anos de sua total falta de valor. Ele era totalmente dependente de uma esposa no que se refere a apoio emocional, e, embora tivesse muito boa aparência e habilidade de expressar-se bem, não tinha amigos. Imaginem seu completo desespero quando sua esposa o abandonou! Felizmente, Harold já estava na terapia nessa época e desejava relacionar-se com outras pessoas. Quando suas primeiras tentativas de asserção com jovens atraentes tiveram mais êxito do que ele jamais ousou esperar, o valor reforçador de tais respostas às suas asserções foi altamente positiva. O alto-conceito de Harold mudou rapidamente, e ele tornou-se muito mais assertivo em várias situações.

Nem todos certamente, experimentarão tão rápidos progressos em sua asserção, e nem todas as asserções terão pleno êxito. O sucesso quase sempre requer muita paciência e depende de um processo gradual de lidar com situações cada vez mais difíceis. No entanto, este exemplo enfatiza uma regra geral que encontramos ao facilitar comportamento assertivo: a asserção tende a ser compensadora por si mesma. É muito agradável sentir que os outros começam a responder mais atenciosamente, atingir seu ideal de relacionamento, fazer com que as situações se resolvam do jeito que você quer. E você pode fazer estas coisas acontecerem!

Comece com asserções simples, nas quais você esteja certo de ser bem sucedido. Assim ganhará mais confiança e treino para lidar com outras mais complexas. É geralmente muito útil e reconfortante contar com ajuda e orientação de outra pessoa, talvez um amigo, professor ou terapeuta profissional.

Tenha sempre em mente que a mudança de comportamento leva a uma série de mudanças de atitude em você mesmo e de outras pessoas e situações em relação a você. A parte final desse capítulo apresenta os passos necessários para levar a esta mudança de comportamento. Leia todo o material aqui exposto cuidadosamente antes de começar. Então volte a esse ponto e comece a seguir os passos em sua própria vida. Você gostará de sua nova maneira de ser.


O PROCESSO PASSO A PASSO

1)Observe seu próprio comportamento. Você tem sido adequadamente assertivo? Você está satisfeito com sua atuação positiva em relações interpessoais? Avalie como você se sente com relação a si mesmo e seu comportamento.

2)Observe atenciosamente sua asserção. Faça anotações ou mesmo um diário durante uma semana. Registre diariamente situações nas quais você se encontrou respondendo assertivamente, outras nas quais você "explodiu" e aquelas que evitou completamente para não ter que enfrentar a necessidade de agir assertivamente. Seja honesto consigo mesmo, e também persistente!

3)Concentre-se numa situação determinada. Feche os olhos por alguns momentos e imagine como lidar com um incidente específico (ter recebido o troco errado no supermercado, ou ter de ficar um tempão ouvindo um amigo falar ao telefone numa hora em que você tinha tanta coisa para fazer, ou deixar que seu patrão o humilhe por causa de um pequeno erro). Imagine claramente os detalhes acontecidos, incluindo o que sentiu na hora e posteriormente.

4)Reveja suas respostas. Escreva seu comportamento no 3o. passo em termos dos componentes da asserção anteriormente relacionados (modo de olhar, posição do corpo, gestos, expressão facial, voz, conteúdo da mensagem). Observe cuidadosamente os componentes de seu comportamento no incidente imaginado. Observe suas forças. Tome consciência daqueles componentes que representam comportamento não-assertivo ou agressivo.

5)Observe o modelo eficaz. Neste ponto seria muito útil observar alguém que sabe lidar satisfatoriamente com a mesma situação. Observe os componentes da asserção, especialmente o estilo - as palavras são menos importantes. Se o modelo é um amigo, discuta com ele a maneira de ele agir e suas consequências.

6)Considere respostas alternativas. De quais outros modos o incidente pode ser tratado? Você poderia lidar com ele de uma maneira mais vantajosa? Menos agressivamente? Volte ao quadro inicial e diferencie respostas agressiva, não-assertiva e assertiva.

7)Imagine-se lidando com a situação. Feche os olhos e visualize-se lidando eficazmente com a situação. Você pode agir igual ao "modelo" do 5o passo ou de um modo muito diferente. Seja assertivo, mas tão espontâneo quanto possível. Repita o passo tantas vezes quantas forem necessárias até que possa imaginar um estilo cômodo para si mesmo e que resolva de modo favorável a situação.

8)Ponha em prática. Tendo examinado seu próprio comportamento, considerado alternativas e observado um modelo de ação mais adequado, você está preparado para começar a pôr em prática novos modos de tratar situações problemáticas. Uma repetição dos passos 5,6 e 7 pode ser feita até que você se sinta pronto a começar. É importante escolher uma alternativa que seja um modo mais eficaz de agir diante de uma situação difícil. Você pode desejar seguir seu modelo e agir como ele (5o passo). Tal escolha é correta, mas deve refletir a consciência de que você é um indivíduo único, e a maneira de ele agir pode não servir no seu caso. Depois de escolher um modo alternativo de comportamento mais eficaz, você deve então representar a situação com um amigo, professor ou terapeuta, tentando agir de acordo com a nova resposta que escolheu. Como nos passos 2,3 e 4, faça uma observação cuidadosa de seu comportamento, usando recursos para registro mecânico quando isso for possível.

9)Obtenha feedback. Este passo essencialmente repete o 4, dando ênfase aos aspectos positivos de seu comportamento. Observe particularmente a força de sua atuação e trabalhe positivamente para desenvolver áreas mais deficientes.

10)Formando o comportamento. Os passos 7,8 e 9 devem ser repetidos tão freqüentemente quanto necessário para "formar" seu comportamento - por este processo de aproximações sucessivas de seu objetivo - até o ponto em que você se sinta à vontade para lidar de maneira positiva com situações previamente ameaçadoras.

11)O verdadeiro teste. Você está agora pronto a testar seu novo padrão de respostas na situação real. Até este ponto sua preparação passou-se em um ambiente relativamente seguro. Contudo, treino cuidadoso e prática constante o prepararam para reagir quase "automaticamente" à situação. Você deve portanto ser encorajado a fazer uma tentativa "ao vivo". Se você não está disposto a isso, mais ensaios serão necessários (pessoas que são cronicamente ansiosas e inseguras ou que duvidam seriamente de seu próprio valor podem precisar de terapia profissional. Recomendamos enfaticamente que você procure logo assistência profissional, se for o caso.). Lembre-se que pôr em prática sincera e espontaneamente o que aprendeu aqui é o passo mais importante de todos.

12)Práticas mais avançadas. Insistimos que você repita os procedimentos que forem necessários para atingir o padrão de comportamento desejado. Você pode desejar seguir um programa desse tipo que se relacione a outras situações específicas nas quais você quer desenvolver um repertório de respostas mais adequadas.

13)Reforço social. Como passo final para estabelecer um padrão de comportamento independente, é muito importante que haja um perfeito entendimento da necessidade de um auto-reforço constante. A fim de manter seu comportamento assertivo recentemente desenvolvido, você deve alcançar um sistema de reforço em seu próprio meio social. Por exemplo, agora você conhece o sentimento agradável que acompanha uma asserção bem sucedida e você pode ficar confiante na continuação dessa boa resposta. A admiração que você receberá dos outros será outra resposta positiva constante que você vai obter.

Concluindo, embora enfatizemos a importância deste processo sistemático de aprendizagem, deve ficar claro que o que recomendamos não é um caminho obrigatório e rígido que não leva em consideração as necessidades e objetivos de cada indivíduo. Insistimos que você crie um ambiente de aprendizagem que o ajudará a desenvolver sua asserção. Nenhum sistema é "certo" para todos. Nós o incentivamos a ser sistemático, mas a seguir um programa que satisfaça suas próprias necessidades individuais. Não há, naturalmente, nenhum substituto para a prática ativa do comportamento assertivo em sua própria vida, quando você optar por isto como meio de desenvolver uma asserção maior e gozar suas grandes recompensas.


UM "EMPURRÃOZINHO"

Agora que você está envolvido no processo de desenvolver um comportamento assertivo, não se permita ficar passivo. Se você ficou interessado suficientemente para chegar até este ponto do texto, ou você está pensando seriamente em melhorar sua asserção ou imaginando como pode ajudar outros a serem mais assertivos. Em qualquer caso, faça alguma coisa! Você não pode mudar somente lendo esse texto. Se você não começar a mudar de atitude no seu cotidiano, nós servimos apenas como um passatempo. Se, por outro lado, você partir agora e lidar como uma situação interpessoal defendendo seus próprios interesses, estamos satisfeitos de ter participado de seu crescimento. Tente!


ALÉM DA ASSERÇÃO

O tema desenvolvido nesse texto versa sobre o valor do comportamento assertivo para o indivíduo que procura dar um sentido próprio à sua vida, e particularmente às suas relações interpessoais. O leitor sensível terá reconhecido algumas das falhas e desvios inerentes à sua própria asserção pessoal. A sensibilidade é necessária a uma análise dessas limitações e consequências negativas da auto-asserção.

Embora o comportamento assertivo por si mesmo seja a recompensa para a maioria, as consequências da situação podem diminuir seu valor. Considere por exemplo, o menino pequeno que assertivamente recusa o pedido de outro grandão para andar em sua nova bicicleta, e como resultado ganha um olho roxo. Sua asserção foi perfeitamente legítima, mas a outra pessoa não quis aceitar a negação da vontade dela. Portanto, sem sugerir que a asserção seja evitada quando parecer arriscada, nós realmente incentivamos os indivíduos a considerar as consequências prováveis de seus atos assertivos. Sob outras circunstâncias, o valor pessoal da asserção será contrabalançado pelo valor de evitar a resposta provável àquela asserção.

Pode ser útil rever um número de situações possíveis nas quais o valor potencial da asserção é pesado em relação às consequências prováveis. É nossa convicção que cada pessoa deve ser capaz de escolher por si mesma como agir. Se um indivíduo pode agir assertivamente sob determinadas condições, mas escolhe não agir, nosso objetivo é alcançado. Se ele é incapaz de agir assertivamente (quer dizer, não consegue escolher por si próprio como se comportar, mas é intimidado em sua assertividade ou compelido a ser agressivo), sua vida será governada por outros e sua saúde mental sofrerá.



REAÇÕES POTENCIAIS ADVERSAS

Em nossa experiência como facilitadores da asserção, descobrimos que resultados negativos ocorrem em um número mínimo de casos. Certos indivíduos, porém, reagem de modo desagradável quando enfrentam a asserção de outrem. Portanto, mesmo quando lida adequadamente com a asserção não deixando que ela seja agressiva ou não assertiva em nenhum grau, alguém pode às vezes ainda ver-se às voltas com situações incômodas, tais como:

1)Revides - Depois de você expressar-se assertivamente, a outra pessoa envolvida pode ficar zangada mas não declarará isto abertamente. Por exemplo, se outros "furam fila" e você exige seu lugar assertivamente, a outra pessoa pode resmungar quando tiver de passar para o fim da linha. Você pode ouvir coisas como: "Quem ele pensa que é?", "Que vantagem!", "É o bom!", e assim por diante. Em nosso modo de pensar, a melhor solução é simplesmente ignorar esse comportamento infantil. Se você replicar de algum modo, é provável que a situação se complique, pois sua resposta reforçará o fato de que as palavras dela o atingiram.

2)Agressões - Neste caso a outra pessoa torna-se abertamente hostil a você. Isso pode significar gritos, brados ou reações físicas como tapas, murros, empurrões. Novamente, o melhor meio de lidar com isso é evitar deixar essa condição dominá-lo. Você pode optar por dizer o quanto lamenta tê-la deixado nervosa com seus atos, mas deve continuar firme em sua asserção. Essa firmeza será especialmente essencial se seu contato com ela continuar no futuro. Se você voltar atrás em sua asserção, simplesmente reforçará a reação negativa da parte dela. Como resultado, da próxima vez que você agir assertivamente com ela, a possibilidade de receber reações agressivas será alta.

3)Crises de Temperamento - Em certas situações você pode ser assertivo com alguém que esteja acostumado a dominar. Ele pode então reagir à sua asserção ficando magoado, queixando-se da saúde, dizendo que você não gosta dele, chorando e lamentando-se, manipulando-o para que você se sinta culpado.

4)Reações Psicossomáticas - Doenças físicas verdadeiras podem ocorrer em alguns indivíduos, se você cortar um hábito arraigado. Dores abdominais, dores de cabeça, desmaios são alguns dos sintomas possíveis. Para continuar assertiva, a pessoa deve, porém, optar por ser firme na asserção, reconhecendo que o outro se ajustará às novas condições em pouco tempo. Você deve também ser coerente em sua asserção quando quiser que a mesma situação ocorra com este indivíduo. Se você é incoerente na asserção de seus direitos, a outra pessoa ficará confusa. Ele ou ela pode vir a simplesmente ignorar sua asserção.

5)Desculpas Excessivas - Em raras ocasiões, depois de você ter afirmado seus direitos, o outro indivíduo se tornará muito humilde com você ou se desculpará demais. Você deve mostrar-lhe que esse comportamento é dispensável. Se, em encontros posteriores, ele parecer temê-lo ou estar excessivamente respeitoso com você, não se aproveite dele. Ao invés disso, você pode ajudá-lo a ser assertivo, utilizando os métodos que descrevemos.

6)Vinganças - Se você tiver uma relação prolongada com a pessoa com a qual foi assertivo, há chance de ela procurar se vingar. Primeiramente, pode ser difícil entender suas intenções, mas com o correr do tempo seus propósitos se tornarão evidentes. Quando você tiver certeza de que ela planeja complicar terrivelmente sua vida, o método indicado é enfrentá-la diretamente, pondo as cartas na mesa. Geralmente isto é suficiente para fazê-la parar suas táticas vingativas.



OPTANDO PELA NÃO-ASSERÇÃO


Opção é a palavra chave no processo assertivo. Desde que você esteja realmente convicto (com a certeza adquirida em encontros assertivos anteriores bem sucedidos) de que consegue ser assertivo, você pode em dado momento decidir não querer ser assim. A seguir citaremos algumas circunstâncias em que se pode optar pela não-asserção:

1)Indivíduos Extremamentes Sensíveis - Em certas ocasiões, a partir de suas próprias observações você pode concluir que certa pessoa é incapaz de aceitar mesmo as asserções mais simples. Quando isso é óbvio, é muito melhor se resignar e não arriscar nenhuma asserção. Embora haja tipos supersensíveis que usam aparente fraqueza para manipular os outros, todos temos consciência de que há alguns indivíduos que se sentem tão facilmente ameaçados que a menor discordância os faz explodir, ou interiormente (e assim ferindo-se), ou exteriormente (e assim ferindo outros). Você deve evitar contatos com este tipo de pessoas o máximo possível, mas se isto for inevitável, há respostas alternativas, como aceitar essa pessoa como ele é e não causar atritos, se isso for possível.

2)Redundância - Uma vez ou outra a pessoa que desrespeitou seus direitos notará que se excedeu antes que você tenha demonstrado sua asserção. Ela estão remediará a situação de modo apropriado. Obviamente você não deve esperar eternamente até que ela faça isso. Além disso, você não deve hesitar em ser assertivo se ela falhar em se corrigir. Se, por outro lado, você vê que a pessoa reconheceu a falta dela, você não deve insistir na sua asserção.

3)Sendo Compreensivo - Uma vez ou outra você pode escolher não ser assertivo porque nota que a pessoa está tendo dificuldades; as circunstâncias podem estar sendo adversas para ela. Em um restaurante, à noite, depois de ter pedido um certo prato, notamos que a cozinheira nova estava tendo grandes dificuldades. Portanto, quando nossa refeição chegou, não exatamente como havíamos pedido, escolhemos não ser assertivos em vez de "complicar" ainda mais. Outro exemplo é quando um conhecido seu está em um dia ruim ou com um mau humor incomum. Nestes caso você pode escolher "passar por cima" de certas coisas que o incomodam, ou adiar um confronto até um momento mais produtivo. (Cuidado: É fácil usar "não desejar magoar os sentimentos de outrem" como racionalização para a não asserção, quando a asserção seria mais apropriada. Se você se encontrar fazendo isso frequentemente, sugerimos que examine cuidadosamente seus motivos verdadeiros).


QUANDO VOCÊ ESTÁ ERRADO


Principalmente em suas primeiras asserções, pode acontecer que você seja assertivo em uma situação interpretada erroneamente. Além disso, pode ser que você use uma técnica ainda imperfeita e ofenda a outra pessoa. Se quaisquer destas situações ocorrerem, você deve ter muito boa vontade em admitir que errou. Não há necessidade de se justificar em demasia, tentando remediar a situação naturalmente, mas você deve ser aberto suficientemente para demonstrar que sabe quando cometeu um erro. Mais ainda, você não deve ficar apreensivo com as asserções futuras em relação àquela pessoa, se você sentir novamente que a situação exige isso.

Texto extraído do livro:


ALBERTI & EMMONS Comportamento Assertivo: um guia de auto-expressão. Belo Horizonte: Interlivros, 1978.





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domingo, 17 de outubro de 2010

As emoções são responsáveis por desencadear tensões no nosso organismo que, por mais que tentemos escondê-las, se traduzem em tremores, “frio no estômago”, dor de barriga, choro, rir sem parar, arquear as sobrancelhas, perder a voz, bem como outros movimentos que muitos de nós já terão experimentado.
Etimologicamente, a palavra emoção provém de duas palavras latinas – ex movere – que significam “em movimento”. Faz sentido, dado que uma emoção é um “conjunto de reacções corporais (algumas muito complexas) face a certos estímulos”, como expressa António Damásio, um dos neurocientistas mais famosos do mundo.

No período da Grécia Antiga, até meados do século XIX, acreditava-se que as emoções eram instintos básicos que deveriam ser controlados sob pena de o homem ter a sua capacidade de pensar seriamente afectada. O primado da racionalidade, que dominava as diversas ciências sociais e humanas, pretendia que as emoções fossem interpretadas como um entrave ao funcionamento adequado da razão, nomeadamente do pensamento.
No entanto, a partir do século XX, as investigações produzidas sobre a emoção levaram-nos a um outro entendimento: a emoção passou a ser considerada uma qualidade, desde que o indivíduo que a esteja a sentir compreenda e tenha consciência do seu estado. A emoção permite, assim, desenvolver a capacidade de relacionamento do indivíduo no e com o mundo. Aliás, as emoções apareceram na História da Humanidade como meio eficaz de comunicação, anteriormente à linguagem.

Dada a grande multiplicidade de teorias que reflectem a dificuldade em sintetizar numa definição a complexidade das emoções, podemos, de uma forma geral, definir emoção da seguinte forma:
৹ Estado mental e fisiológico, breve e espontâneo, associado a uma ampla variedade de sentimentos, pensamentos e comportamentos.
৹ Modificação dos componentes químicos do cérebro e, consequentemente, da sua estrutura. As emoções vividas vão definindo o que somos, dado que todas as experiências emocionais quotidianas que compõem fisicamente o cérebro criam ou fortalecem as conexões existentes entre os neurónios. Cada momento de medo, de raiva, de felicidade ou de desgosto transformam-nos de maneira mais ou menos duradoura, modificando a nossa estrutura cerebral.



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Emoção difere de sentimento
Um dos factores que torna distinguíveis as emoções dos sentimentos é a privacidade destes últimos e a exterioridade das emoções. A emoção é pública, observável, tendo uma dimensão comunicacional, enquanto o sentimento está voltado para o interior do ser humano.
Os sentimentos surgem após tomarmos consciência das nossas reacções corporais, quando estes movimentos são transmitidos a determinadas zonas do cérebro através da actividade neuronal. Nas emoções, conseguimos reconhecer o elemento que as desencadeou, contrariamente aos sentimentos que não se associam a nenhuma causa imediata. Os sentimentos são emoções filtradas através dos centros cognitivos do cérebro, mais especificamente do lobo frontal.


Emoção e razão
Actualmente, já se reconhece a ideia de que a razão e emoção não se encontram nos antípodas. O divórcio entre a razão e a emoção é um mito, visto não ter qualquer sustentação científica. É impossível privilegiar a razão sobre a emoção ou vice-versa. Há todo um funcionamento combinado e inseparável entre a razão (cérebro racional) e as emoções (cérebro emocional), uma vez que são as emoções que provocam um determinado pensamento e é este que, por sua vez, provoca uma determinada emoção.
Segundo António Damásio, um dos mais famosos neurocientistas do mundo, as emoções não constituem um obstáculo ao funcionamento da razão. Estas estão envolvidas nos processos de decisão: por mais simples que seja o processo, existe sempre uma emoção associada à escolha feita, dado que o córtex cerebral se apoia nas emoções para decidir.


O Cérebro e a formação das Emoções

No cérebro, o sistema límbico regula as emoções, sendo tão poderoso que pode anular, tanto os pensamentos racionais, como as respostas vitais. A amígdala, centro do sistema límbico, é responsável por qualquer resposta emocional.

Na última década, com o rápido desenvolvimento da área das Neurociências, foi definitivamente reconhecida a relevância do papel que as emoções desempenham na vida diária.

O cérebro vive num estado de desequilíbrio dinâmico: por um lado, é impulsionado por energias excitatórias; por outro, por forças inibidoras.

Ao longo do dia, esta instabilidade sofre alterações que se reflectem no humor, no estado de consciência e na qualidade do pensamento. Diversos factores biológicos, psicológicos e ambientais intervêm neste processo.
Como o Cérebro Distingue Emoção e Sentir

Damasio (2000) faz uma clara distinção entre emoções e sentimentos. Ao contrário de emoções, sentimentos não são instintivos, eles estão conscientes e discriminatórios porque são baseados na memória, no conhecimento, e no sentido da autobiografia.



As funções básicas de emoções são predefinidas: elas são “dispositivos que são instintivos e autônomos".



As primárias emoções como medo, felicidade, tristeza, raiva, surpresa, e repugnância, o autor afirma que elas são universais emoções devido à sua aparição em primatas, o aparecimento precoce no desenvolvimento humano.

Estas emoções primárias são curiosas adaptações, são parte integrante das máquinas com os organismos que regulam a sobrevivência e originários do sistema límbico.

Todas as entradas sensoriais do corpo são enviadas para a amígdala e córtex, através do tálamo. Fisiologicamente falando, a amígdala, aproxima duas estruturas de tamanho no sistema límbico, e o emocional age como filtros de informações sensoriais, especialmente o medo.



A amígdala é o principal jogador, na medida em que ambos os envia e recebe informações de muitas outras partes do cérebro. Se a amígdala avalia esta entrada como tendo alto conteúdo emocional, que prioriza a entrada e envia imediatamente aos neurotransmissores sinais que vêm de várias partes do cérebro, (tais como o hipotálamo), e corpo, (como o coração), para agir, usa-se a analogia.

Porque os gânglios do neocórtex levam mais tempo do que a amígdala para processamento da informação, é possível que a amígdala cause um efeito de curto-circuito no cérebro.



Entretanto, as mesmas informações sensoriais são enviadas para outras partes do cérebro, tais como a gânglios basais e do neocórtex, onde o conhecimento e memória são acessados e incluídos na avaliação sensorial de entrada. Esta combinação de fatores de produção e avaliação atinge um nível de consciência e as emoções torna-se então um sentimento, ou o que ele chama o sentimento de emoção, que é definido como "a representação do mesmo transiente que causa mudança no organismo estatal em termos de padrões neurais e daí imagens”.



Ainda de acordo com Damásio (2000), somos nascidos com os mecanismos neurais necessários para gerar órgão ou somáticos estados, como o medo, em resposta a certos estímulos sensoriais. Quando o medo ou repugnância, por exemplo, são geradas certas respostas corporais correspondem a cada uma dessas emoções. Estas respostas são amplamente universais: por exemplo, os bebês respondem ao medo causado por um súbito e forte choro, pelo ruído incomum estiramento muscular, acelerando a freqüência cardíaca.



Com o passar do tempo, porém, enquanto reações corporais ou somáticas que correspondem a essas emoções como medo continuam a ser os mesmos, a máquina de emoções desenvolve mais sofisticadas vieses através da autobiografia da recolha de memórias.

Para exemplo, se essa criança vive em uma zona de guerra onde altos ruídos são freqüentes e normais e a criança venha a não reagir como significativa ou medrosamente a ruídos altos. Do mesmo modo, a pessoa na analogia vai lembrar que nem todos os ursos são perigosos.



É importante notar que a entidade ou estados somática pode ser positivo ou negativo.

Negativo: organismo afirma desacelerar o processamento de imagens e de limitar a diversidade de imagens que podem ser tratados, limitando assim a eficiência do raciocínio, mas que permita o corpo de chamar a atenção para o objeto causando a emoção negativa.



Positivo: estados reforçados com rápida geração de diversas imagens, e o raciocínio são acelerados, mas não necessariamente eficientes. Felicidade, por exemplo, também tem específicos órgãos que marcam a sua ocorrência, de forma específica que experimentos delinear claramente a diferença entre um verdadeiro ou emocional sorriso e um sentimento artificial.



O estudo mostra que não só são diferentes vias neurais ativadas, mas também diferentes estados são promulgadas corpo, incluindo a utilização de diferentes músculos faciais. Estas vias neurais específicas que servem emoções refere-se como mapas neurais, e as respostas corporais que acompanham específicas emoções, ele se refere como mapas corporais. Isso corresponde com a descrição de William James "emoções padrão", como o medo e a raiva, quando ele afirma que sentimentos são baseados em uma percepção dos estados corporais.



Objetos percebidos pelos sentidos são avaliados para conteúdo emocional e marcados. Essa marcação pode ser feita com base em mapas neurais antes e / ou mapas corporais associados com o objeto, ou baseados em geral nas associações instintivas. Deste modo, cada objeto é marcado ou sinalizado como positivo ou negativo.



Estes marcadores somáticos ou emocionais sinais não tomam decisões, mas orientar as decisões por ajudarem a centrar a atenção sobre determinados aspectos do ambiente e reforçar assim a qualidade do raciocínio e, teoricamente, a adequação das nossas respostas.



Uma imagem de um corpo e mente integrados, ligados entre si pela emoção e sentimento funções do cérebro. Emoções, que são inconscientes, criar estados físicos, mas sentimentos, que são conscientes, na maioria das vezes surgem a partir de mapas neurais, que são baseadas no corpo repetidas estados.



Sentimentos em seguida são cognitivos, uma vez que dependem de atividades e funções dentro do cérebro. O cérebro tem como emoção e sentimento influenciando cada função, assim que cognição já não pode ser examinada sem o seu grupo, a emoção.

Sandra Regina da Luz Inácio
O Cérebro Emocional


Para que Servem as Emoções?
É com o coração que se vê corretamente; o essencial é invisível aos olhos.
ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY, O pequeno príncipe

Pensem nos últimos momentos de Gary e Mary Jane Chauncey, um casal inteiramente dedicado à filha Andrea, de onze anos, confinada a uma cadeira de rodas por uma paralisia cerebral. A família Chauncey viajava num trem da Amtrak que caiu num rio, depois que uma barcaça bateu e enfraqueceu uma ponte ferroviária, na região dos pântanos da Louisiana.

Pensando primeiro na filha, o casal fez o que pôde para salvar Andrea quando a água invadiu o trem; de algum modo, eles conseguiram empurrá-la por uma janela para a equipe de resgate. E morreram, quando o vagão afundou.
A história de Andrea, de pais cujo último ato heróico é assegurar a sobrevivência de um filho, capta um momento de coragem quase mítica.

Sem dúvida, esses incidentes de sacrifício paterno pela prole se repetiram inúmeras vezes na história e pré-história humanas, e inúmeras vezes mais no curso maior da evolução de nossa espécie.


Visto da perspectiva dos biólogos evolucionistas, esse auto-sacrifício paterno está a serviço do "sucesso reprodutivo" na transmissão dos genes a futuras gerações. Mas da perspectiva de um pai que toma uma decisão desesperada, num momento de crise, nada mais é do que amor.

Como uma intuição do objetivo e força das emoções, esse ato exemplar de heroísmo paterno atesta o papel do amor altruísta e de todas as outras emoções que sentimos na vida humana.

Indica que nossos sentimentos mais profundos, nossas paixões e anseios são guias essenciais, e nossa espécie deve grande parte de sua existência à força deles nos assuntos humanos. Essa força é extraordinária: só um amor poderoso a urgência de salvar uma filha querida levaria um pai a vencer o impulso de sobrevivência pessoal. Visto do intelecto, pode dizer-se que o auto-sacrifício deles foi irracional; visto do coração, era a única escolha a fazer.

Os biólogos sociais indicam a preeminência do coração sobre a mente nesses momentos cruciais, quando indagam por que a evolução deu à emoção um papel tão essencial na psique humana. Nossas emoções, dizem, nos guiam quando enfrentamos provações e tarefas demasiado importantes para serem deixadas apenas ao intelecto o perigo, a dor de uma perda, a persistência numa meta apesar das frustrações, a ligação com um companheiro, a formação de uma família.

Cada emoção oferece uma disposição distinta para agir; cada uma nos põe numa direção que deu certo no lidar com os recorrentes desafios da vida humana. À medida que essas situações se repetiram e repetiram ao longo de nossa história evolucionária, o valor de sobrevivência de nosso repertório emocional foi atestado gravando-se em nossos nervos como tendências inatas e automáticas do coração humano.

Uma visão da natureza humana que ignora o poder das emoções é lamentavelmente míope. O próprio nome Homo sapiens, a espécie pensante, é enganoso à luz da nova apreciação e opinião do lugar das emoções em nossas vidas que nos oferece hoje a ciência. Como todos sabemos por experiência, quando se trata de modelar nossas decisões e ações, o sentimento conta exatamente o mesmo e muitas vezes mais que o pensamento. Fomos longe demais na enfatização do valor e importância do puramente racional do que mede o QI na vida humana. Para o melhor e o pior, a inteligência não dá em nada, quando as emoções dominam.
DANIEL GOLEMAN

A questão mente-corpo, o problema de como a mente se relaciona com o cérebro e o resto do corpo, constitui uma das questões filosóficas mais inquietantes. Tem sido sempre o calcanhar-de-aquiles da psicologia.(LeDoux, 2001)

1.1 Breve biografia de Daniel Goleman

Daniel Goleman, Ph.D., é o presidente do Emotional Intelligente Service (Empresa de Consultoria), em Sudbury, Massachusetts. Ao longo de 12 anos escreveu sobre psicologia e ciências do cérebro para o The New York Times. Editor da revista Psychology Today por nove anos, lecionou em Harvard, onde recebeu o título de doutorado.

É autor de vários livros, dentre os quais Inteligência Emocional e Trabalhando com a Inteligência Emocional, ambos best-sellers.

1.2 A Inteligência Emocional
Para Goleman (1995):

cada emoção leva consigo uma disposição distinta para a ação rumo à direção que deu certo no lidar com os recorrentes desafios da vida humana, ficando gravadas em nosso sistema nervoso como tendências inatas e automáticas do coração humano.

Uma visão da natureza humana que ignora o poder das emoções é lamentavelmente míope.

O próprio nome Homo sapiens, a espécie pensante, é enganoso à luz da nova apreciação e opinião do lugar das emoções em nossas vidas que nos oferece hoje a ciência. ...quando se trata de modelar nossas decisões e ações, o sentimento conta exatamente o mesmo - muitas vezes mais - que o pensamento. Fomos longe demais na enfatização do valor e importância do puramente racional - do que mede o QI (Quociente de Inteligência). Para melhor e o pior, a inteligência não dá em nada, quando as emoções dominam. (Goleman (1995, p. 18)

Emoções são impulsos direcionados para a ação. A própria raiz da palavra emoção é movere, - mover - em latim, mais o prefixo *e-*, para denotar - afastar-se -.

Com base em Goleman (1995, p.20 e Apêndice A) elaboramos a seguir uma tabela sobre algumas emoções básicas:

Tipo Característica Reação

IRA Fúria, revolta, ressentimento, raiva, exasperação, indginação, vexame, animosidade, aborrecimento, irritabilidade, hostilidade e, talvez no extremo, ódio e violência patolígicos O sangue flui para as mãos, fica mais fácil pegar uma arma ou golpear um inimigo; os batimentos cardíacos aceleram-se e uma onda de hormônios como a adrenalina gera uma pulsação, energia suficientemente forte para uma ação vigorosa.

TRISTEZA Sofrimento, mágoa, desânimo, desalento, melancolia, autopiedade, solidão, desamparo, perda de prazer, desespero e, quando patológica, severa depressão. Confusão e falta de concentração mental, lapsos de memória, dificuldades alimentares e com o sono, apatia.

MEDO Ansiedade, apreensão, nervosismo, preocupação, consternação, cautela, escrúpulo, inquietação, pavor, susto, terror e, psicopatológico: fobia e pânico. O sangue vai para os músculos do esqueleto, como o das pernas, tornando mais fácil fugir, o corpo imobiliza-se para fugir ou lutar.

PRAZER Felicidade, alegria, alívio, contentamento, deleite, diversão, orgulho, prazer sensual, emoção, arrebatamento, gratificação, satisfação e bom humor, disposição e entusiasmo, euforia, êxtase e, no extremo, mania. Maior atividade no centro cerebral que inibe sentimentos negativos e favorece o aumento de energia existente e silencia os que geram pensamentos de preocupação; a tranqüilidade permite o corpo refazer-se de emoções perturbadoras, repouso geral.

AMOR Aceitação, amizade, confiança, afinidade, dedicação, adoração, paixão. O sangue vai para os músculos do esqueleto, como o das pernas, tornando mais fácil fugir, o corpo imobiliza-se para fugir ou lutar.


O quadro anteriormente mencionado apenas reflete parte de nossas emoções. A intenção é sugerir que as emoções desencadeiam uma série de reações em nosso organismo, ficando absolutamente claro que é o estado psíquico, reflexo de nosso amadurecimento emocional e cognitivo, o fato gerador, a causa de tais reações, e não ao contrário como sugerem alguns cientistas. O fato de alguém sofrer uma lesão em determinada área de cérebro e em conseqüência apresentar sintomas comportamentais diferentes dos que originalmente aconteciam, não justifica que o cérebro é o grande comandante de nossas vidas. O cérebro, mesmo lesionado, encontra-se sob o poder da Mente que detém o poder da vontade, sede de todo nosso psiquismo.

1.3 - Goleman critica a Teoria de Inteligências Múltiplas
Para Goleman (1995) as teorizações de Gardner (Inteligências Múltiplas) contêm uma dimensão de inteligência pessoal que é amplamente apontada, mas pouco explorada: o papel das emoções. (grifo nosso)

Talvez isso se dê porque, como me sugeriu ele próprio, seu trabalho é fortemente informado por um modelo mental de ciência cognitiva. Assim, sua visão dessas inteligências enfatiza a percepção – a compreensão de si e de outros nas motivações, nos hábitos de trabalho e no uso da intuição na própria vida e na relação com os outros. Mas, como acontece com campo cinestésico, onde o brilho físico se manifesta não verbalmente, o campo das emoções também se estende além do alcance da linguagem e da cognição.

... Gardner e os que com ele trabalham não investigaram com muitos detalhes o papel do sentimento nessas inteligências (Inteligências Múltiplas), concentrando-se mais na cognição sobre o sentimento.

Essa concentração, talvez não intencional, deixa inexplorado o rico mar de emoções que toma a vida interior e os relacionamentos tão complexos, tão absorventes, e muitas vezes tão desconcertantes.

E deixa por sondar tanto o sentido em que há inteligência nas emoções quanto o sentido em que se pode transmitir inteligência às emoções”. (Goleman, 1995 p. 52)

1.4 - O papel da amígdala: um centro no cérebro límbico
Goleman (1995, p. 29) afirma que Joseph LeDoux, neurocientista do Centro de Ciência Neural da Universidade de Nova Iorque, descobriu o papel-chave da amígdala no cérebro emocional.

Nos seres humanos, a amígdala vem do grego e significa amêndoa, é um feixe em forma de amêndoa, de estruturas interligadas situado acima do tronco cerebral, próximo à parte inferior do anel límbico. Há duas amígdalas, uma de cada lado do cérebro.

Para Goleman (1995) as explosões emocionais são seqüestros neurais. A amígdala, um centro no sistema límbico, detecta uma emergência e recruta o resto do cérebro para o seu plano de emergência. E o nosso cérebro pensante, o neocórtex, ainda não percebeu o que está acontecendo.

Esses seqüestros não são específicos de incidentes graves e horrendos que levam a crimes brutais, ocorrem também conosco com muita freqüência quando perdemos o “controle” e explodimos com alguém – com parentes, colegas de trabalho, no trânsito... – e depois ficamos até perplexos com as nossas próprias atitudes irracionais.

A remoção cirúrgica da amígdala para controlar sérios ataques em um rapaz provocou-lhe um completo desinteresse pelas pessoas, um alheamento, isolando-se sem nenhum contato humano. Embora conversasse normalmente, não mais reconhecia ninguém, nem mesmo a mãe, e permanecia impassível diante da angústia deles com a sua indiferença. Sem a amígdala perdeu a identificação de sentimento, visto que ela atua como um depósito da memória emocional, e portanto do próprio significado; a vida sem amígdala é uma vida privada de significados emocionais.

Os sinais que vêm dos sentidos permitem que a amígdala faça uma varredura de toda experiência, em busca de problemas. Isso a põe num poderoso posto na vida mental, alguma coisa semelhante a uma sentinela psicológica, desafiando cada situação, cada percepção, com apenas um tipo de pergunta em mente, a mais primitiva: É alguma coisa que odeio? Isso me fere? Alguma coisa que temo? Se for esse o caso – um Sim – a amígdala reage instantaneamente, como um fio de armadilha neural, telegrafando uma mensagem de crise para todas as partes do cérebro

A memória emocional pode ser um repositório de impressões emocionais e lembranças que jamais conhecemos em plena consciência.” (Goleman, 1995, p.30)

A pesquisa de LeDoux revela que a arquitetura do cérebro oferece à amígdala uma posição privilegiada de sentinela emocional. Os sinais sensoriais do olho ou do ouvido viajam para o tálamo, e depois – por uma única sinapse – para amígdala; um segundo sinal do tálamo é encaminhado para o neocórtex – nosso cérebro pensante. Fica explícito que a amígdala responde antes do neocórtex ser informado.

Para Goleman a pesquisa de LeDoux é revolucionária para a compreensão da vida emocional por ser a primeira a estabelecer os caminhos neurais de sentimentos em torno do neocórtex. Os sentimentos em linha direta à amígdala são os mais primitivos, grosseiros e poderosos, e acaba por explicar o poder da emoção para esmagar a racionalidade. Enquanto a amígdala nos lança à ação, o neocórtex (racional) ainda está pensando qual o plano mais adequado!

1.5 – A ação do neocórtex: a amígdala propõe, o lobo-pré frontal dispõe
Enquanto a amígdala prepara uma reação ansiosa e impulsiva, e nem sempre a mais adequada, outra parte do cérebro emocional possibilita uma resposta mais reflexiva e mesmo corretiva.

Segundo Goleman (1995):

A chave do amortecedor cerebral das ondas repentinas da amígdala parece localizar-se na outra ponta de um circuito principal do neocórtex, nos lobos pré-frontais, logo atrás da testa. O córtex pré-frontal parece agir quando alguém está assustado ou zangado, mas sufoca ou controla o sentimento para tratar com mais eficácia da situação imediata... Essa região neocortical do cérebro traz uma resposta mais analítica ou adequada aos nossos impulsos emocionais, modulando a amígdala e outras áreas límbicas.” GOLEMAN, 1995, p. 38)

Ocorre que a resposta neocortical, embora mais criteriosa e ponderada, é mais lenta em tempo cerebral quando comparada à resposta emocional direcionada pela amígdala.

A tristeza fundamentada em uma perda ou a alegria decorrente de uma vitória, toda essa reflexão é o neocórtex agindo.

Ainda assim a amígdala não deve ir para o banco dos réus, porque exerce – entre outras – a importante missão de um disparador de emergência.

A relação entre esses circuitos nem sempre é pacífica, como diz Goleman os circuitos que vão do cérebro límbico aos lobos pré-frontais significam que os sinais de forte emoção – ansiedade, ira e afins – podem criar estática neural, sabotando a capacidade do lobo pré-frontal de manter a memória funcional e é por isso que, quando estamos emocionalmente perturbados dizemos: “Simplesmente não consigo pensar direito” – e porque a contínua perturbação emocional cria deficiências nas aptidões intelectuais pode mutilar a capacidade
A saúde mental depende da higiene emocional e, na grande maioria, os problemas mentais refletem o colapso da organização emocional. As emoções podem ter conseqüências tanto úteis quanto patológicas.” (LeDoux, 2001)

1.1 Breve biografia de Joseph LeDoux

Jospeh LeDoux é professor do Center for Neural Science da New York University. Pesquisador respeitado na área, já recebeu prêmios do National Institute of Mental Health, da National Science Foundation e da American Heart Association.

Joseph LeDoux (2001) em seu livro “O Cérebro Emocional” já nos traz valiosa contribuição logo no início do capítulo 1:

Naturalmente, em algum nível sabemos o que são as emoções e não precisamos de cientistas para nos falarem a respeito delas.

Todos já amamos, odiamos e sentimos medo, raiva e alegria. Mas o que é que reúne estados mentais como esses no pacote que costumamos chamar de ‘emoções’? O que torna esse pacote tão diferente dos outros pacotes mentais, para os quais não costumamos fazer uso da palavra ‘emoção’?

De que maneira as emoções influenciam todos outros aspectos da nova vida mental, moldando nossas percepções, lembranças, pensamentos e sonhos? Por que tantas vezes parece-nos impossível entender nossas emoções? Nós controlamos nossas emoções, ou são elas que nos controlam?

As emoções são definidas geneticamente ou são transmitidas ao cérebro pelo meio ambiente? Animais (que não os seres humanos) têm emoções e, neste caso, todas as espécies de animais as possuem? Podemos ter reações e lembranças emocionais inconscientes? É possível apagar o quadro-negro emocional, ou as memórias emocionais são permanentes?” (LeDoux, 2001)

LeDoux considera as emoções funções biológicas do sistema nervoso e afirma que saber como as emoções são representadas no cérebro pode ajudar-nos a entendê-las.

Essa abordagem é inteiramente diferente de outra mais conhecida, segundo a qual as emoções são estudadas como estados psicológicos, independentemente dos mecanismos cerebrais subjacentes.

A investigação psicológica tem sido extremamente valiosa, mas o enfoque que considera as emoções como uma função do cérebro é bem mais eficaz... O cérebro constitui uma fonte inestimável de variáveis passíveis de manipulação. Estudando a emoção através do cérebro, ampliamos enormemente as oportunidades de novas descobertas, muito superiores àquelas que podem ser realizadas pela experiência psicológica apenas.” (LeDoux, 2001)

LeDoux afirma que, via de regra, as reações emocionais são produzidas de maneira inconsciente e que Freud acertou em cheio ao descrever a consciência como a ponto do iceberg mental.

A emoção é um sentimento consciente. Precisamos conhecer não tanto o estado consciente de medo ou reações decorrentes, mas sim o sistema que detecta o perigo em primeiro lugar.

Sensação de medo e corações descompassados são uma conseqüência da atividade desse sistema, cuja situação é inconsciente – literalmente, antes mesmo de sabermos que de fato corremos perigo.

Finalmente, diz LeDoux, emoções em ação tornam-se poderosos fatores de motivação para futuras atitudes. São elas que definem o rumo de cada ação e dão partida nas realizações de longo prazo. Mas nossas emoções também podem nos trazer problemas.

LeDoux alerta que as emoções se voltam contra nós quando o medo se transforma em ansiedade, o desejo dá lugar à ganância, uma contrariedade converte-se em raiva e a raiva em ira, a amizade dá lugar à inveja e o amor à obsessão, ou o prazer se torna um vício.

1.2 A ciência cognitiva ignora o estudo das emoções
LeDoux enfatiza que quando voltamos nossa atenção para dentro, para nossas emoções, percebemos como elas são, ao mesmo tempo, óbvias e misteriosas. Constituem os estados mentais que mais conhecemos e cuja lembrança nos é mais clara. No entanto, às vezes não sabemos de onde provêm:

As emoções podem ir-se instalando lenta ou repentinamente, e suas causas podem ser evidentes ou obscuras. Nem sempre entendemos o que nos faz acordar com o pé esquerdo.

Podemos ser agradáveis ou detestáveis por razões diferentes daquelas às quais atribuímos nosso comportamento. Podemos reagir a um perigo antes mesmo de “sabermos” de que ele está a caminho. A beleza estética de uma pintura pode atrair-nos mesmo quando não entendemos conscientemente por que gostamos dela. Conquanto nossas emoções representem a essência de quem nós somos, ao que parece elas também têm seus próprios objetivos, os quais freqüentemente são colocados em prática sem nossa participação intencional.” (LeDoux, 2001)

É possível imaginar uma vida sem emoções? Nós estruturamos situações que possam nos oferecer prazer e alegria, e nos precavemos daquelas que poderão nos causar decepção, tristeza ou sofrimento.

“A compreensão científica das emoções seria excelente, pois poderia levar-nos a perceber como funcionam os aspectos mais pessoais e misteriosos da mente, e ao mesmo tempo iria ajudar-nos a entender o que pode dar errado quando essa esfera da vida mental sofre um colapso. Os cientistas não estão conseguindo chegar a um acordo quanto ao que sejam as emoções.

Muitas carreiras científicas têm sido devotadas a, quando não devoradas pela, tarefa de fornecer uma explicação para as emoções. Infelizmente, talvez uma das coisas mais importantes que já se disse sobre a emoção é que todos sabem o que é, contanto que não lhes peçam para defini-la.” (LeDoux, 2001)

Conforme LeDoux a ciência cognitiva surgiu recentemente, em meados deste século, e costuma ser descrita como a “nova ciência da mente”.

Mas a ciência cognitiva aborda apenas um lado do cérebro, o que tem relação com o pensamento, o raciocínio e o intelecto. A emoção é excluída. E a mente não existe sem emoção. As criaturas tornam-se almas de gelo – frias, sem vida, desprovidas de desejos, temores, tristezas, sofrimentos ou prazeres.

Algumas tentativas de definir a ciência cognitiva caracteriza-se pela oposição à emoção, conforme explica Joseph LeDoux:

“Em The Mind’s New Science: A History of the Cognitive Revolution (A Nova Ciência da Mente: História da Revolução Cognitiva), Howard Gardner classifica a irrelevância de fatores emocionais ou afetivos como uma das cinco características que definem a ciência cognitiva. (grifo nosso) ...

Em seu importante manual de 1968, Cognitive Psychology (Psicologia Cognitiva), Ulric Neisser afirma que esse campo de estudo não se interessa pelos fatores dinâmicos (como as emoções) que motivam o comportamento.

Jerry Fodor, em The Language os Thought (A Linguagem do Pensamento), obra filosófica pioneira na ciência cognitiva, descreve as emoções como estados mentais externos à explicação cognitiva.

E Bárbara Von Eckardt, em seu livro intitulado What Is Cognitive Science? (O que é Ciência Cognitiva), sustenta que a maior parte dos cientistas cognitivos não considera o estudo das emoções relevante para esse ramo...” LeDoux (2001, p. 32)

LeDoux conclui manifestando seu desejo de impedir que a emoção seja devorada pelo monstro cognitivo provém da maneira como entende a organização das emoções no cérebro.

domingo, 10 de outubro de 2010

ALGUNS CONTORNOS DO INSIGHT
OU O ENTENDIMENTO DE UM MECANISMO
VITAL À CRIATIVIDADE



Mª de Fátima Morais




INTRODUÇÃO

Falar em insight é falar em criatividade. Falar em criatividade é falar, necessariamente, em insight. Não estoua referir-me à produção divergente de respostas, mas à resolução criativa de problemas, a qual é mais ampla como desde Guilford (1956), aliás, tem sido reconhecido. Criatividade é então a eficácia em novidade, é romper expectativas, é a possibilidade de ser-se lucidamente inesperado: e, para tal, necessariamente, existe insight. “Esta questão central da psicologia do pensamento que tem persistido através do século" (Mayer, 1995, p. 4) é então apontada frequentemente como associada ao processo criativo, globalmente: nas suas manifestações mais mundanas ou famosas (Seifert et al., 1995; Sternberg & Lubart, 1995).



Por sua vez, quando se aborda este conceito, necessariamente também emerge a importãncia da sua desmitificação, da sua afirmação enquanto pesquisável podendo ser assim alvo de reflexão, avaliação e mesmo promoção. Desta forma, gosto de lembrar palavras, quase poéticas, de Metcalfe (1995, p.x) lamentando que “a sua consideração enquanto algo sobrenatural entravasse investigadores na exploração deste conceito que é um dos processos cognitivos mais importantes. Porém, fenómenos naturais de todas as espécies - relâmpagos, marés, o nascer do sol e da lua - foram atribuídos a intervenção divina até que as suas causas naturais fossem entendidas…”. Precisamos, cada vez mais, então, de entender insight.



O termo insight foi introduzido na Psicologia pela Teoria da Gestalt, referindo-se aí tanto à reorganização do campo perceptivo como a processos mais complexos de pensamento. Contudo, mesmo nesse paradigma inicial, insight seria muito mais divulgado enquanto associado à processos mais básicos como a percepção ou ao comportamento animal do que a fenómenos cogntivos humanos – e veja-se os os trabalhos de Duncker(1945) com conceitos nucleares como o de rigidez functional ou a abordagem de problemas matemáticos pelo próprio Wertheimer (19945/1991).



Viria a ser um conceito depois negligenciado com o avanço da Revolução Cognitiva, recuperando interesse recentemente justamente pela perspectiva que durante anos atrás o obscureceu. Viria a ser (re)lido enquanto processamento informativo a partir da Psicologia Cognitiva, nascendo um interesse renovado pelo insight num reaproveitamento ou numa reinterpretação de informações (Eysenck & Keane, 1990; Henle, 1992). É, desta forma, um olhar que tenta uma maior operacionalização desse conceito ou, como disseram Langley e Jones (1988), que tenta retirá-lo do carácter místico de que estava revestido. Um exemplo desta nova motivação face à compreensão do insight são as quase 600 páginas de investigação recente constituintes da obra The (nature of insight Sternberg & Davidson, 1995). É, na grande maioria dos seus trabalhos, também um exemplo da importância explícita que este conceito tem na resolução criativa de problemas (e.g. Isaak & Just, 1995; Dunbar, 1995).



MAS O QUE É O INSIGHT?

A nível de uma definição operacional de insight, que permita o seu reconhecimento, pode-se começar por lembrar a posição da Gestalt afirmando-o como a descoberta súbita da resposta a um problema (cf. Mayer, 1996). Numa linguagem mais recente, é considerado como a passagem súbita de um estado de desconhecimento ou de incompreensão para um estado de conhecimento e resolução face a um problema (Gick & Lockhart, 1995; Mayer, 1995). Ou se quisermos, numa perpectivação ainda mais consensual, a reestruturação súbita de informação na substituição de uma representação para outra que, por fim, resolve o problema. A criança que, de repente, “vê” que o pato desenhado afinal “também pode” ser um coelho, ou a taça um par de caras, realiza um insight da mesma natureza que o contido no problema humorístico “um galinheiro tinha 10 galinhas, veio um lobo e comeu 2. Quantas ficaram?” (podendo ficar 8 ou12..) ou que o contido numa descoberta científica que muda o mundo. A representação A deu lugar, subitamente, à representação B, menos óbvia mas eficaz.



Que características específicas deste fenómeno podem, então, ser apontadas? Estando presente na maioria das definições de insight (Dominowsky & Dallob, 1995), e desde os trabalhos da Gestalt (Kohler, 1925; Duncker, 1945), emerge o carácter súbito da resposta. Este dado viria mesmo a ganhar suporte experimental. Partindo de problemas com e sem exigência de insight, pediu-se a sujeitos para analisarem a sua percepção face à proximidade da solução enquanto os resolviam. Verificou-se, então, que quando o insight não era exigido, havia um incremento, ao longo da resolução, nessa percepção; quando o problema o exigia, tal percepção era súbita. Neste último caso, havia também menor previsão de sucesso face ao problema por parte do sujeito (Metcalfe, 1986; Metcalfe & Wiebe, 1987). Este carácter súbito da resposta é ainda referido por vários autores actuais (Davidson, 1995; Gick & Lockhart, 1995; Seifert et al., 1995). Porém, há que ter em conta que a natureza do problema pode complexificar (e não contrariar) este dado. Se o problema exige uma resolução complexa e envolvente de várias etapas, o insight pode ocorrer mas não ser suficiente para a resposta correcta acontecer (eg. Dominowsky & Dallob, 1995). Estes autores dão o exemplo, muito divulgado, dos 9 pontos distribuidos igualmente por 3 linhas paralelas e onde se apela para serem ligados apenas por 4 traços sem levantar o lápis do papel. O insight dá-se quando o sujeito percebe que pode desenhar as linhas além do quadrado formado pelos pontos mas poderá só depois reflectir que linhas deve fazer. Nos problemas de resposta verbal, geralmente o insight e a resposta coincidem.



Outra característica deste conceito é o seu surgimento espontâneo, não havendo consciência do que o provocou e levando a uma reacção de surpresa (eg. Mayer, 1995; Seifert et al., 1995). Juntamente com a ocorrência súbita da resposta, este aspecto provoca ainda um sentimento de satisfação (Seifert et al., 1995). Por sua vez, estas reacções fazem com que o insight tivesse sido sempre considerado como a experiência do Aha (Kohler, 1925; Gick & Lockhart, 1995). Esse tipo de experiência decorre também de uma outra característica na resolução por insight, ou seja, da resposta correcta não ser imediata ao contacto com o problema, havendo um momento inicial de insucesso (Davidson, 1995; Weisberg, 1995), como veremos ainda neste artigo.



COMO SE PODE EXPLICAR INSIGHT?

Não pretendendo ser exaustiva em explicações e sim mais assertiva em demonstrar que insight é explicável, somente vou tomar como referência alguns trabalhos da Psicologia Cognitiva que o associam a processos de armazenamento, organização e activação de conhecimento e à presença de relações analógicas ou metafóricas nesse processamento cognitivo.



Langley e Jones (1988) têm esta perspectiva face ao insight baseando-se em trabalhos com cientistas e baseiam-na no modelo de memória de Activação por Propagação (spreading activation). Neste modelo, a memória é tomada como uma imensa rede de conceitos e de ligações entree les, sendo activada a rede a partir de uma informação exterior. P.ex, a palavra “verde” vai activar um conceito próximo (ex: “erva”) e este activará, por sua vez, conceitos próximos (ex: “campo”mas também “golf” e assim sucessivamente até ser possível a associação entre conceitos remotos e potencialmente criativos. Na sua explicação, Langley e Jones usam os termos propostos por Wallas (1926) para a resolução criativa de problemas. Assim, na preparação acontece a o armazenamento de informação na memória a longo termo (MLT) mas já de uma forma potencialmente útil, instrumental. Por exemplo, se é memorizado um esquema de dois objectos com diferentes níveis de água unidos por um tubo comunicante, ele poderá ser memorizado em associação ao conceito de equilíbrio. Perante o problema, o sujeito pode já aqui tentar activar informação para resolvê-lo mas ainda não há suficiente intensidade na ligação entre informações que permita uma recuperação de dados criativa e, assim, o cientista desiste. Entretanto as ligações entre osconceitos vão sendo cada vez mais trabalhadas, pois é dada grande atenção ao que vai sendo estudado.



Duas formas de insight podem, então, surgir. Uma informação nova entra na memória a curto termo (MCT), a activação mnésica propaga-se e conceitos armazenados, que já ganharam ligações fortes, podem vir à MCT e aí contactarem com a nova informação implicando insight. Pode também acontecer que o insight não envolva somente a nova informação e uma antiga. Essa nova informação pode desencadear uma activação da memória permissora da associação entre duas informações armazenadas na MLT e ser então esta conjugação a responsável pelo insight. Por exemplo, o cientista busca a solução para um problema de temperatura em dois objectos. A informação exterior pode ser a visão de uma queda de água que vai activar o esquema memorizado dos objectos associado com o conceito de equilíbrio. Então, esta informação poderá activar uma outra relacionada com dois objectos de temperaturas diferentes e as duas informações conjugarem-se dando uma solução mostrando a transferência de temperatura de um objecto para o outro. Este é, assim, o momento da iluminação que se dá inconscientemente pela rapidez com que a recuperação e conjugação de informação acontece. Isso, para os autores, explica a sensação de um fenómeno inexplicável e a consequente reacção de surpresa.



O momento da verificação acontecerá no desenvolvimento da ideia, não havendo a fase de incubação. Langley e Jones (1988, p. 190) afirmam que, para haver insight, a memória está "simplesmente à espera que alguma pista inicie a recuperação de uma analogia promissora" (analogia essa presente nas duas alternativas de insight consideradas).



No sentido da importância atribuida à activação da informação na memória e ao pensamento analógico (ou metafórico), pode-se ainda referir a perspectiva de Martindale (1989). Também este autor fala no papel que uma nova informação pode ter na activação de outras duas armazenadas na MLT e que, já num nível consciente, se conjugam provocando insight. Dá mesmo um exemplo pessoal de um texto cuja leitura (nunca finalizada por ele) fez associar dois conceitos remotos. Sublinha ainda neste funcionamento, a presença de processos primários e secundários do pensamento. Assim, (e também baseando-se nos termos de Wallas) na preparação há uma focalização muito grande da atenção fazendo com que o espaço de activação da memória seja menor. Consequentemente, não surgem conexões criativas e o sujeito desiste. Ao contrário de Langley e Jones (1988), este autor utiliza a fase de incubação na sua explicação, dizendo que aí alguns conceitos associados ao problema continuam activados no limiar da consciência e que, como o sujeito continua activo (noutros assuntos), novas informações são recebidas sendo estimuladoras de um maior espaço de activação (porque há menor focalização da atenção). Então, um relacionamento analógico (entre informação remota) pode acontecer dando-se a iluminação, isto é, o insight. A fase de verificação acontecerá a seguir.



Outro trabalho que, pela análise de resolução de problemas, defende uma postura semelhante às anteriores no que respeita ao armazenamento, organização, recuperação e conjugação analógica de informação, foi conduzido por Seifert e colegas (1995).

Mais uma vez, são usadas as fases de Wallas (1926) para sistematizar esta proposta explicativa e, ainda contrariamente a Langley e Jones (1988) que negam a incubação, essa fase é aqui tomada como relevante.

Como olham eles então a incubação e as outras fases da resolução criativa de problemas? O encontro e a compreensão de obstáculos na resolução dos problemas e a sua posterior combinação com uma informação nova é o mais importante.

Após uma interrupção na resolução de problemas, os autores verificaram que havia um maior aproveitamento de informações para a solução criativa quando os sujeitos retomavam a resolução na condição de terem já encontrado e analisado obstáculos. O que acontece, então?

Na preparação, há dispêndio de tempo e de atenção no problema, o que permite chegar aos obstáculos e à análise destes (“porque a resolução está a ser ineficaz? Porque não estou sendo capaz”). Esta informação é, assim, armazenada na MLT transformando-se em indicadores importantes face ao problema.

Na fase de incubação, há exposição a informação (interna ou externa) que pode interagir com tais indicadores e fornecer uma nova representação do problema. Acontece, então, a iluminação ou o insight, de uma forma súbita e geralmente inconsciente. A verificação virá depois.

Vamos exemplificar com a situação proposta por Weisberg (1987): “Ao almoço, tinha uma taça plena de café. Caiu-me dentro da taça o meu lenço mas este não se molhou. Porquê?” Se este problema fosse muito complicado e as pessoas gastassem muito tempo pensando nele, inicialmente poderiam analisar os obstáculos: “mas porque não se molhou?! Se o café é líquido, tinha de se molhar!” e essa informação, esse obstáculo analisado, ficaria na memoria como sendo um indicador importante.

A pessoa poderia desistir de pensar no problema e um dia ver água gelada transformar-se em líquido ou o contrario e, subitamente – e analogicamente - perceber que o café também poderia estar em grão e não em líquido, dando-se um insight. Na opinião dos autores, esta é uma forma de entender como as mentes preparadas, como falava Pasteur, são favorecidas, podendo nascer delas actos profundamente criativos.



De todas as explicações anteriores parece, então, emergir algumas constantes na compreensão do insight. Assim, para todas elas, este fenómeno desempenha um papel central na resolução criativa, é pesquisável e tradutor de um processamento cognitivo envolvente de vários requisitos.

Neste processamento, parece salientar-se a busca e a manipulação selectiva de informação, assim como uma activação da memoria que permite o encontro de similaridades entre informações armazenadas e percepcionadas. Quase todas as explicações referem ainda explicitamente a correspondência do insight a uma alteração de representação do problema. Esta correspondência parece, por sua vez, estar em sintonia com definições da Teoria da Gestalt (Duncker, 1945; Wertheimer, 1945/1991).



ALGUMAS POLEMICAS

O conceito de insight não aparece como pacífico, havendo várias questões que, simultaneamente, parecem fonte de polémica e de desafio para futuros investimentos. Uma outra questão susceptível de polémica é a própria definição de problema de insight.

Isto porque ela abrange uma diversidade de situações ou, como afirma Weisberg (1988, p. 152), uma "classe heterogénea" de problemas, e porque estas não são condição suficiente para que a sua resolução correcta signifique insight (eg. Gick & Lochart, 1995). Serão, então, dois aspectos a explorar.

No primeiro caso, pode ver-se classificações de problemas de insight como as de Davidson e Sternberg (1986) em função de processos cognitivos requeridos a ou de Dominowsky e Dallob (1995) em função do conteúdo envolvido (espaciais, verbais e de manipulação real de objectos).

Também o tipo de resposta exigida diversifica os problemas de insight. Assim, há as situações de resposta errada quando o problema induz uma representação que rápida mas ineficazmente leva à resposta, e de ausência de resposta quando é difícil formar uma representação do problema que permita qualquer solução (Davidson, 1995; Davidson, Denser & Sternberg, 1996).

Assim, mesmo havendo características comuns a todos estes problemas como a ignorância do método de resolução e a prévia determinação de resposta única (Mayer, 1995), a ausência de uma definição específica de problema de insight e a diversidade em causa prejudicam a investigação (Dominowski & Dallob, 1995; Weisberg, 1995).



Por sua vez, um problema de insight pode não implicar a ocorrência deste fenómeno. Pode-se resolver correctamente um problema de insight sem necessariamente ter um insight! É uma interacção entre o problema e o conhecimento do sujeito que vai determinar tal ocorrência.

Se há experiência do sujeito naquele tipo de situações (resolução por alteração de representação mental) ou nos conteúdos em qustão, pode haver uma resposta imediata não requerendo reestruturação cognitiva do problema, logo, de insight.

O seu conhecimento permitiu a representação correcta da situação quando contactou com a situação (Davidson, 1995; Gick & Lockhart, 1995; Weisberg, 1995). Por exemplo, no “problema do café”, um empregado que trabalha todos os dias com café poderá ver de imediato a resposta porque o seu conhecimento lhe permite de imediato a representação correcta.

Também, por exemplo, num problema que estimula uma representação (errada) a nível de cálculos, um sujeito com muita experiência em cálculos pode de imediato ter a resposta correcta.

Assim, considerando a diversidade de situações apelativas de insight e a interacção destas com o sujeito que as resolve, a garantia de que tal fenómeno ocorre vem mais da observação do processo do que da resposta (e.g. Davidson, 1995), o que sugere que provas de avaliação de insight sejam analisadas sempre a nível qualitativo (como se resolveu o problema) e não somente quantitativo (respostas correctas e erradas).



Este conceito parece então surgir, simultaneamente, como permitindo avanços mas estando ainda muito carente a nível de investigação. Não há mesmo uma teoria sólida sobre insight, talvez dependendo esta de maior desenvolvimento a nível de uma teoria global da cognição, aplicável a diversos objectos (Eysenck & Keane, 1990; Necka, 1993).

Contudo, dizer que não se estudou totalmente o insight não significa que a explicação racional de tal fenómeno não existe, nunca esquecendo que "conheceremos a criatividade na medida em que possamos ter um modelo de insight" (Necka,1993, p. 100).





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