sábado, 20 de novembro de 2010

Carl Rogers, crer na capacidade do se auto-desenvolver

A idéia de crer no organismo de tal forma que este fique livre para se desenvolver e, a partir da preparação de um ambiente rico, atingir o melhor de si significa a mais pura fé na vida. Foi por meio de interações entre Rogers e seus clientes que, ao tornaram-se cada vez mais livres e espontâneas, o teórico aplicou suas idéias.

Seu trabalho com grupos se estabeleceu por meio da busca da liberdade além das influências restritivas que exercem as instituições sociais, ou mesmo da responsabilidade acadêmica. Eis a natureza de um trabalho que se pautou (e tem se estabelecido) a partir da crença no ser humano, ainda que pareça este impossível de desenvolver-se de alguma forma.

Rogers foi influenciado em sua formação por uma religião rigorosa e fundamentalista, o que delimitou profundamente suas idéias. Ele mesmo descrevia-se como alguém “socialmente incompetente” uma vez que não estabelecia nada mais que relacionamentos superficiais.

A limitação exercida pelos dogmas religiosos se deu de tal forma que, em um curso de Psicologia, surpreendeu-se ao descobrir que uma pessoa poderia ter valor fora da igreja, pelo trabalho junto à quem precisasse de alguma ajuda.

Sua terapia foi de um abordagem formal e diretiva para o que iria denominar terapia centrada no cliente, em que a força orientadora da relação exercida na terapia deveria ser o cliente, não o terapeuta.


Segundo Rogers, as pessoas se utilizam de suas experiências para se definirem, que possibilitam uma estrutura por meio da qual podem construir e modificar suas opiniões acerca de si mesmas. Esse campo de experiência, único para cada indivíduo, limita-se em restrições psicológicas e biológicas.

Inclui, ainda, eventos, percepções, sensações dos quais não se toma consciência, mas que seria possível se a pessoa focalizasse atenção nesses estímulos. O self, outro de seus importantes conceitos, é uma gestalt que, organizada e consistente, está num processo constante de formar-se e reformar-se na proporção em que mudam as situações. É a partir dessa idéia de mutabilidade que Rogers fundamenta suas idéias de que as pessoas tendem ao crescimento, à mudança e desenvolvimento pessoal.


Ele desenvolve o conceito do self ideal como conjunto de características que o indivíduo gostaria de reclamar para descrever-se a si mesmo. A diferença entre o self e o self ideal indica um desconforto e difuculdades neuróticas. Ele enfatiza a aceitação de si mesmo como se é, e não como se pretende ser, como um sinal de saúde mental e a diferenciação entre um e outro torna-se um obstáculo ao crescimento pessoal.


Entretanto, um de seus conceitos que mais impressiona remete-se à congruência, definida como o grau de exatidão entre a experiência da comunicação e a consciência do estado presente. Crianças pequenas externam alto grau de congruência, já que expressam seus sentimentos em consonância com o seu ser total. Caso haja incongruência entre a tomada de consciência e a experiência, a este fenômeno Rogers chama de repressão, quando a pessoa não tem consciência do que faz.


O medo e velhos hábitos de encobrimento pode levar à incongruência, que, por vezes, é percebido como mentiroso, inautêntico ou desonesto. A incongruência pode ser sentida como tensão, ansiedade ou confusão interna. Esta última aparece quando a pessoa não é capaz de escolher dentre os diversos estímulos aos quais está exposto em dado momento, uma vez que seja difícil diferenciar dentre esses estímulos os que são genuínos daqueles impostos.

Nesse sentido, o problema não é a ambivalência, mas o ser incapaz de reconhecê-la ou enfrentá-la, que pode ser cause de ansiedade.

A tendência à auto-atualização, parte do processo de todas as coisas vivas, que tendem a expandir-se, estender-se, tornar-se autônomo, amadurecer, é facilmente abafada. O impulso em direção à saúde não constitui força que facilmente supere os obstáculos ao longo da vida, sendo facilmente distorcido e reprimido. Segundo Rogers, é uma força motivadora que predomina em uma pessoa que funciona de modo livre, não paralisada pelo passado ou por crenças presentes que mantêm incongruência.


O crescimento psicológico se dá de forma natural em direção à saúde do organismo o que se dá naqueles que desenvolvem capacidade de experienciar e de se tornarem conscientes de seus desajustamentos.

A maior tarefa da terapia é estabelecer um relacionamento genuíno interpessoal na qual um dos membros se liberte o suficiente da incongruência para se contactar com o próprio centro de auto-correção. A aceitação de si mesmo é pré-requisito para aceitação genuína dos demais e ser aceito pelos demais leva a vontade crescente de aceitar-se a si próprio. Ciclo de auto-correção e auto-incentivo que minimiza obstáculos ao crescimento pessoal.


Quanto aos obstáculos ao crescimento da pessoa, estes aparecem na infância e são normais ao desenvolvimento. Quando a criança passa a tomar consciência do self, cresce uma necessidade por amor ou consideração, o que a leva a agir de forma que lhe garanta tal amor ou aprovação, independente de serem os comportamentos saudáveis ou não para si. Esses comportamentos ou atitudes que negam algum aspecto do self são denominados condições de valor, os obstáculos básicos à percepção e tomada de consciência realista.

As condições e atitudes cujo cumprimento se acumulam para que se concretize o sentimento de ser digno, na proporção em que são idealizadas, constituem áreas de incongruência. Tais condições de valor criam uma discrepância entre o self e o auto-conceito, quando para mantermos essas condições temos de negar aspectos de nós mesmos.


Admitir sentimentos, ainda que diversos do que deveria ser para aceitação, e permitir-lhes expressão é mais saudável, de acordo com Rogers, que rejeitá-los ou aliená-los. A partir dessa supressão, o crescimento é impedido, já que pretende sustentar a falsa auto-imagem do que artificialmente seja o bom, e a pessoa continua o destorcer de experiências.


À medida em que há incongruência entre o self e a realidade, aumenta-se a vulnerabilidade, aumentam-se as defesas, que acabam por criar novas ocasiões de incongruência. Tais devesas nem sempre funcionam, o que podem resultar no pânico, ansiedade crônica, retraimento ou mesmo psicose. O comportamento psicótico pode ser a representação externa de um aspecto que o sujeito negou de sua experiência, representando tentativa desesperada da personalidade em se reequilibrar e possibilitar a realização de necessidades internas frustradas.


Quanto à terapia centrada no cliente dá uma ênfase maior sobre o impulso individual em direção ao crescimento e à saúde, sendo uma questão de libertar o cliente para um desenvolvimento normal. Enfoca o aspecto afetivo muito mais que os aspectos intelectuais, além de dar grande importância à situação imediata do indivíduo, além de entender o relacionamento terapêutico em si mesmo como experiência de crescimento. A terapia busca permitir a uma pessoa o revelar de suas próprias questões com um mínimo de intrusão pelo terapeuta. Rogers a entende como liberação de capacidades já existentes em estado latente e é o cliente que assume a direção necessária ao desenrolar da terapia. Interessante abordar que os métodos terapêuticos aplicados por Rogers amadureceram na medida em que se modificavam suas opiniões acerca da natureza do homem, chegando a inverter-se quase que totalmente.

É essencial ao terapeuta entender e acreditar que o seu cliente é um aspecto da natureza divina, e que a personalidade interior, talvez não desenvolvida, é capaz de entender-se a si mesma.

A partir da aceitação, cabe ao terapeuta adotar uma postura não julgadora que implica em uma real compreensão e empatia com a realidade do cliente, captando o mundo particular do cliente como se fosse seu próprio mundo, sem esquecer o “como se”.

Tal postura permite ao cliente liberdade para explorar sentimentos internos, uma vez que não haja somente aceitação, mas busca por compreensão e tentativa de sentir as mesmas situações por parte do terapeuta.

Por fim, tal compreensão há que ser habilmente comunicada ao cliente, uma vez que este precise saber que o terapeuta é autêntico, preocupa-se o ouve e o compreende de fato. E, cabe ao terapeuta, entender e viver a premissa de que esteja, assim, como o cliente, no processo de se tornar mais e mais congruente.

Há o interesse por parte de Rogers de que o cliente determine seu próprio cliente a partir dos esforços de encorajamento e apoio pelo terapeuta. E isso se dá apenas a partir do estar verdadeiramente presente e aberto para um outro ser humano, empático à dor dessa pessoa, confiante quanto a eu amadurecimento e capacidade de lhe comunicar de sua crença.

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