sábado, 20 de novembro de 2010

Exercício de Meditação de Insight

Extraído do livro Superando a Ilusão do Eu - Um Guia de Meditação Vipassanā (Bhante
Yogavacara Rahula) – Edições Casa de Dharma 2006

O exercício de meditação seguinte é dirigido àqueles que ainda não estejam praticando nenhuma forma de meditação, que não tenham a orientação de um professor ou àqueles que só querem saber do que se trata. É apenas voltando a atenção ao momento presente da experiência que se desenvolvem gradualmente o insight e o conhecimento direto.

Releia a seção anterior e familiarize-se com os
conhecimentos de insight.

Para o iniciante, é útil encontrar um lugar razoavelmente tranqüilo e confortável para sentar.

Sente-se
com as costas e a cabeça retas, porém relaxadas, não rígidas. Ponha as mãos no colo, de maneira confortável, e feche os olhos suavemente.

Você pode começar com algumas séries de inspirações e expirações lentas e profundas, sentindo o movimento. Pare então de controlar a respiração e deixe que ela volte ao seu ritmo natural.

Abandone o desejo de experimentar qualquer coisa do mundo ou se identificar com ela. Elimine todo pensamento de fatos do passado, presente ou futuro. Abandone toda raiva e animosidade que você possa ter alimentado e que ainda pode o estar envenenando.

Agora, desenvolva e sinta amizade amorosa e compaixão verdadeiras por todos os seres, desejando- lhes felicidade e libertação de toda tristeza. Deseje que as pessoas vivam em harmonia, sem discussões ou desejo de dominação, que residam felizes e em paz no “conhecimento bem-aventurado da sabedoria”, a nossa verdadeira natureza.

Essas reflexões preparatórias ajudam a mente a perceber o que fará em seguida e aquietam um pouco a mente-macaco, desligando-a das atividades do dia e de emoções reprimidas que podem estar fervilhando por dentro.

Se desejar, pode fazer mais algumas respirações profundas e lentas, mas depois deixe voltar ao ritmo natural. Agora traga a atenção à sensação da postura sentada, à forma como o corpo está posicionado.

Por alguns minutos, apenas deixe a atenção se mover pelo corpo, começando pela área em que as nádegas tocam o chão, apenas sentindo a dureza ou maciez desse contato. Depois apenas deixe a atenção se mover nas pernas, sinta como estão flexionadas, em que pontos tocam o chão, sinta o toque da roupa na pele.

Deixe então que a atenção suba lentamente por todo o corpo, sentindo-o, deixando as
várias sensações irem e virem. Quando chegar ao rosto, sinta a região em que os lábios se tocam, sinta a umidade ou secura, a maciez; sinta a língua parada na boca, sinta o ar entrando e saindo pelas narinas, sinta as pálpebras pousadas no globo ocular, sinta os olhos nas órbitas e os músculos em volta.

Realmente experimente essas sensações. Sinta o cabelo na cabeça, onde ele toca as orelhas, nuca ou ombros.

Agora, a partir de um ponto no topo da cabeça, deixe a atenção correr pelo corpo, e fique atento ao contorno de toda a postura sentada, em uma atitude de atenção que examina, como se a atenção estivesse pousada ligeiramente atrás do corpo.

Agora fique atento à área do estômago e abdômen ou do peito e sinta o movimento de inspiração e expiração onde ele for mais perceptível. Isso é importante porque esse movimento de sobe e desce será o treino para começar a cultivar a plena atenção aguda e precisa. Apenas sinta o movimento de inspiração do começo ao fim, esteja atento à pausa que pode ocorrer, e então sinta o movimento de expiração do começo ao fim. Conheça-o através da sensação.

Pode ser útil, no começo, dizer
mentalmente: “subindo” durante a inspiração e “descendo” durante a expiração. Se você conseguir, no entanto, ficar bem atento ao movimento sem esse recurso, não o use. Apenas esteja atento ao surgimento, duração breve e cessação da inspiração e ao surgimento, duração breve e cessação da expiração, com o contorno da postura sentada ao fundo.

Se a mente divagar ou se o pensamento intervier, apenas o perceba com atenção pura, o mais rápido possível. Você pode fazer uma observação mental como “pensamento, pensamento” se isso ajudar a mente a ficar mais alerta, e então simplesmente trazer a atenção de volta ao subir/descer e à postura.

Não fique irritado se a mente divagar muito ou se o pensamento se transformar em um estrondo, pois isso vai acontecer. Apenas faça o possível para manter uma distância desapegada e não se identificar com isso, deixando, com plena atenção, que surja, mas também fazendo todo o possível para deixar que se vá. Mantenha-se bastante atento aos movimentos de subir e descer e à postura ao fundo, não se apegando a nada e não rejeitando nada.

Mantenha todo o corpo relaxado, os olhos relaxados, a coluna ereta, a cabeça estável, os ombros soltos, em um estado de atenção tranqüila, sem tensão.
Você perceberá diversas sensações surgindo e desaparecendo. Elas vêm e vão como bolhas de água.

Algumas duram algum tempo, e se tomarem sua atenção tente sentir como estão mudando, mesmo quando parecerem perdurar. Se elas causarem desconforto ou dor, esteja atento ao efeito dessas sensações sobre a mente, e crie um espaço de delicadeza onde elas possam se manifestar. Não lute contra isso, não fique tenso, diga a si mesmo: “relaxe, relaxe”, mantenha a atenção desapegada e volte ao surgir/desaparecer e à postura sentada.

Você poderá ouvir sons externos. Apenas os perceba com atenção pura, como “ouvir, ouvir”. São apenas sons; não há objeto no som. Apenas deixe os sons e o ato de ouvir entrar e sair da mente como o vento através de uma janela aberta, sem apego, sem rejeição. Volte delicadamente ao surgir/desaparecer/sentado.

Apenas permita que os estímulos sensoriais e a atenção a eles surjam e desapareçam através dos sentidos/mente. Tente discernir o surgimento simultâneo, ou emparelhado, do estímulo material e da consciência dele, e o desaparecimento de ambos. Desenvolva o primeiro conhecimento de insight de ascensão e queda. (Releia a parte anterior).

Fique como uma casa vazia, sem ninguém para atender ao chamado nas portas dos sentidos; apenas faça o registro sensível, desapegado, de cada estímulo visitante conforme aparece e não encontra ninguém em casa; chega sem ser convidado, vai embora sem ser convidado.

Deixe que a mente perca a identificação e a reação às influências sensoriais, sabendo que na verdade não há um “eu” ao qual essas experiências pertençam. Apenas se abra e deixe que a sensação de “eu” e de separação vá desaparecendo da atenção, com todo o processo ocorrendo sozinho, simplesmente, voltando a se centrar periodicamente no surgir/desaparecer/sentado.

Esteja atento às idas e vindas da mente - pensamentos, idéias, planos, projetos, devaneios, inquietação, preocupação, tédio, cansaço, sonolência, dúvidas etc. Perceba-as com atenção pura, sabendo que são napenas atividades transitórias, vazias, condicionadas, às quais a mente está habituada. Não se envolva
com elas. Se elas não forem percebidas como realmente são, de maneira rápida e precisa, você se perderá nelas. Para conseguir equilíbrio, volte ao surgir/desaparecer/sentado.

Apenas atenção imaculada aos momentosn seqüenciais da experiência sensorial surgindo/desaparecendo, surgindo/desaparecendo, surgindo/desaparecendo, fundada neste corpo, com seus órgãos dos sentidos, é a base para todo o espetáculo.

Quando essa contemplação se tornar forte, sintonize a atenção para que veja apenas a dissolução das formações, e experimente os momentos de ver, ouvir, cheirar, sentir gosto, tocar e pensar como algo que desaparece, desaparece e desaparece no vazio da mente.

Veja-os apenas se desmanchando com uma velocidade incrível.

Não deixe que o corpo despenque nem que a mente entre em devaneio. Mantenha uma postura ereta e relaxada e uma atenção alerta, porém composta, desapegada, como a de um espectador.

Desenvolva o conhecimento do insight da aparência como terror (nada a que se agarrar ou a que chamar de “eu” ou “meu”), e da aparência como perigo (porque se nos identificarmos a essas formações e nos apegarmos a elas, surge o sofrimento).

Veja como a mente que se apega tenta agarrar e manter essas vibrações sensoriais e esses pensamentos vazios, em desintegração, e como a partir deles desenvolve todo nosso mundo de experiência sujeito-objeto. Perceba que todas essas formações e nosso mundo objetificado, inclusive a consciência do “eu” individual, são apenas uma projeção da mente deludida, não têm nenhuma realidade separada, completa, além da mente, apenas uma grande ilusão, a teia de Mara. Ria dela, não deixe que ela o assuste.

Reflita então sobre o conhecimento do estado de paz: não-surgimento, não-apego etc., é segurança, nibbāna. Cultive o conhecimento do desapego, do desejo de liberação, da reflexão e da equanimidade.

Nesse estágio, ou em qualquer outro, podem surgir uma grande paz e êxtase, pontos coloridos, uma luz brilhante ou a idéia de que você progrediu. São apenas sinais de que se desenvolveu um certo grau demconcentração e insight.

Na verdade, essas são corrupções do insight, pois se você ficar atraído por elas e tentar agarrá-las, será como o apego a qualquer outra coisa: resultará em decepção, pois elas não vãodurar muito de qualquer maneira. Você deve observá-las com desapego, sabendo o que são, e deixar que sigam seu rumo natural. Você não precisa tentar fazê-las ir embora, pois elas desaparecerão por si mesmas. Retome sua contemplação normal de surgir/desaparecer/sentado.

Outro método, ou meio hábil, que ajuda a obter a sensação de não-eu ou vazio é ver todas as experiências sensoriais acontecendo no céu ou no espaço, sem que haja nenhum corpo envolvido. Veja todos os momentos de ouvir, ver, tocar, pensar, cheirar, sentir gosto como estrelas cadentes desaparecendo no vazio do espaço.

Apesar de o objetivo da prática de meditação ser transcender a mente, ir além do processo de pensar e conceituar, isso é realizado, por assim dizer, “dissuadindo-se a mente dela mesma”.

Tente obter a sensação de estar no “olho do furacão”, onde tudo é perfeitamente calmo e plácido, enquanto o exterior está rodopiando no mais absoluto caos. Mantenha-se imperturbável, deixe com as investidas sensoriais o afetem. Não se agarre nem mesmo à idéia de estar no olho de um furacão. Deixe que ela também desapareça na “atenção do grande céu”.

Deixe que a mente se expanda e se funda ao grande oceano da atenção, o estado anterior ao surgimento dos padrões de hábitos condicionados da mente, vindos da consciência do “eu” e do apego.

Deixe que esse estado de êxtase e paz sublimes cresçam e permeiem toda a experiência.

Essas contemplações devem ser praticadas repetidas vezes, pelo menos uma vez ou duas por dia, de preferência de manhã e à noite. Dessa forma, ao final de um tempo você será capaz de desenvolver essa atenção e trazê-la às atividades da sua vida diária. Para isso, mantém-se a atenção ao que quer que se esteja fazendo, seja sentar, ficar em pé, andar, ficar deitado, comer, lavar-se, ir ao banheiro, falar, pensar etc.

Você deve apenas estar atento ao que quer que o corpo e a mente estejam fazendo no momento presente, enquanto acontece, sabendo que tudo isso é não-eu. Além disso, sempre que npossível, durante o dia, volte a sentir o sobe/desce da respiração por alguns instantes ou por mais tempo. Isso vai ajudá-lo a trazer à mente as outras reflexões e também o ajudará a fortalecer os períodos de meditação sentada, o que por sua vez vai permitir que você mantenha a atenção durante suas atividades cotidianas. Esses dois tipos de prática se fortalecem mutuamente.

Você pode achar que isso é difícil de fazer. Pode ser que seja no começo, e pode até parecer um pouco
estranho.

No entanto, a base do esforço é a confiança de saber que ele pode ser feito, pois você o está fazendo, e saber as vantagens e benefícios que ele trará. Supera-se então a resistência e o estranhamento iniciais, e toda a prática de atenção ao momento presente se desdobra gradualmente e flui livremente, sem esforço. Dessa forma, pode-se superar a ilusão do eu.

As ações e pensamentos se manifestarão a partir de uma base sem eu, fundada em sabedoria e compaixão. Além disso, muitas das mazelas do corpo e outras coisas que o incomodavam serão menos intensas, e você experimentará uma sensação de calma e tranqüilidade permeando todo o seu ser/vida. Você experimentará a paz e a felicidade do plano espiritual da mente, que nenhuma das vicissitudes passageiras do mundo dos fenômenos pode perturbar, e uma atitude totalmente nova em relação à vida vai se desenvolver.

Esse é o benefício e a vantagem de transcender a identificação e o apego aos cinco agregados e superara delusão do eu.

Que todos os seres entrem no caminho de liberação, iluminação e Nibbāna!

Extraído do livro: Superando a Ilusão do Eu - Um Guia de Meditação Vipassanā

Autor: Yogavacara Rahula Bhikkhu

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